Geraldo dos Santos Pires
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Amigos, antes de tudo, deixem-me mandar um recado para o meu amigo Roberto Nogueira:
— Meu caro Roberto, andei ouvindo por aí que você está a fim de tirar umas férias no Jornal (este, com “J” maiúsculo, o nosso). E trata-se de uma de suas atividades mais sérias (para nós, leitores seus, é a mais séria, já que muitos não lhe conhecem os tantos outros talentos da mente e da alma). Mas... Férias pra quê? E nós, leitores fiéis aos seus sempre agradáveis e contundentes temas, categóricos, francos, terminantes e, principalmente, essa sua veia muito mestra na ironia... E nós, como é que ficamos?
Olhe, eu sou obrigado a recorrer à famosa frase de Antoine de Saint-Exupéry “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, pois você sabe que a todos os leitores de bom gosto do Jornal você os cativou. — E agora, José? (José de Assis?) Sim, o “de Assis” mesmo, porque eu sei que você é, talvez, o seu fã número 1... E como é que ficamos?
Você há de me perguntar por que essa cobrança toda, se eu mesmo, algumas vezes, já me afastei também e não ficou ninguém desesperado e nem... Nem nada. Minto. Um dia desses minha mulher saiu à rua e voltou com três recados para mim, porque eu não escrevi crônica nenhuma. Graças a Deus eles reclamam a nossa ausência. Fazer o quê?
Bem, não vou jogar você na arena das feras do Coliseu de Roma, talvez até porque essa sua anunciada ausência não tenha nada de anormal, talvez haja apenas motivo (se houver razão é diferente, claro) e eu esteja aqui conjeturando horrores e projetando a sua ausência como se projeta o nunca mais. Nunca mais, nunca! Afinal de contas é preciso distinguir quem faz falta e quem não faz falta alguma. E, neste caso, você quer saber mais? Não consigo ver um O IMPARCIAL culturalmente rico e agradável sem a sua presença em alguma página, de preferência junto da minha crônica. Finalmente, pense bem se há necessidade mesmo de sua ausência em favor de outra causa e aí, sim, resolva como você sempre soube resolver, com sabedoria, a sua vida. Aliás, essas poucas palavras são de alguém que pegou a notícia pelo rabo e dela não conhece, portanto, tudo. Mas são palavras de um bom amigo que, haja o que houver, não aceita separar-se do outro.
Pois é. Mas já que tomamos esse espaço todo em forma de carta, por que não tentar, eu mesmo, fazer uma carta pombense (é pombense mesmo, viu?) a você, a exemplo das Cartas Brasilienses? Será que dá? Vamos lá:
Olhe, você sabe como é que eu sou. Esta linha que estou escrevendo é só um jeito, um modo de emendar uma coisa na outra. Escrever é costurar ideias, quando se as tem. Vai-se tecendo uma palavra à outra e amarrando-as com a linha da habilidade. Estou aqui olhando para a tela do computador, mas os olhos da mente estão ávidos, buscando na memória já tão vagabunda, increia, mas que ainda assim é incrivelmente fiel às imagens e fatos que gravou do seu passado de criança e jovem, formando a memória de que eu preciso agora, se lhe quiser contar alguma coisa da velha Rio Pomba, do Pomba, em forma de carta. Aliás, cartas são ótimas, não são? Só as cartas contam a verdadeira história de alguém ou de algum lugar, pois os segredos, quando necessários, saem do remetente e ficam com o recebedor, que geralmente é pessoa de confiança, é ou não é? Pois, então?
Mas vamos a um episódio de que me lembrei agora. Antes, e na liberdade que só as cartas nos proporcionam, quero falar como está a política de hoje, e depois quero mostrar a política de muitos anos atrás, só para comparar. Fala-se muito, ou melhor, só se fala, dia e noite, das roubalheiras em todos os setores de governos, sejam o federal, os estaduais e os municipais. A palavra “vergonha” perdeu o sentido, já não atinge ninguém. Honra... Honra? O que é que é isso? É curioso e tristemente engraçado, porque, se você olhar no dicionário, verá que o significado da palavra “lisura” é: “aquele procedimento fundamental na administração de verbas públicas”. Isto mesmo. Mas no Brasil, se você perguntar a qualquer um brasileiro, do Rio Grande Sul ao Rio Grande do Norte e das Guianas e os países limítrofes (acho que nem seria preciso separá-los, porque é tudo farinha do mesmo saco...), mas, repetindo, se dentro dessa imensidão você perguntar a qualquer pessoa (qualquer mesmo, com ou sem estudo) se os governos roubam, ela vai responder sem pestanejar: “Roubam. E não é pouco não!”. Se nós quisermos insistir e perguntar de novo: —“Desde quando se rouba assim?” “Ah, desde que me entendo por gente”— responderá a pessoa.
Mas para comprovar, de fato, essa verdade, posso agora revelar-lhe um exemplo que é uma preciosidade dentro do que estamos conversando. Foi o próprio sujeito que foi fazer a cobrança na prefeitura do Pomba (acho que naquela época ainda não era Rio-Pomba) [Aliás, este pequeno detalhe vai aliviar muita gente, não? Mas a coisa foi antiga mesmo]. Deu-se que o dono do bar viu que a conta da farra já estava alta, era uísque Old Par que não acabava mais, proveniente dos bebes e comes que os políticos faziam quase diariamente num reservado aos fundos, lugar seguro para se falar sem perigo. Ali se juntavam o prefeito e toda a tropa de choque. Mas disse o cobrador que, ao falar com o prefeito, ele chamou alguém da administração e deu a ordem: “Faz lá uma nota assim: ‘Custo de um jantar oferecido ao Senhor Governador por ocasião de sua passagem por esta cidade”. Daí a pouco o funcionário já trouxe o dinheiro vivo (naquela época, acho que nem no banco o dinheiro ia). Eu não vou citar nomes, assim como ninguém, ninguém mesmo, em todos esses anos (e são muitos) citou. Mas o que me contou o fato, disse que o dono do bar fazia a mesma coisa quase sempre, senão a conta ia ficando muito alta e poderia... Né? Mas disse ele que era assim.
É só pra você ver, meu amigo Roberto, que o primeiro roubo neste Brasil nem foi do Cabral, mas de algum índio chefe de alguma coisa na tribo. Para mim, esse negócio de mamar à boca cheia nas tetas do governo começou na construção de Brasília. Juscelino, infelizmente, parece que fazia questão de não saber de nada. Por isso eu não sei ainda se foi Brasília quem inventou o roubo das verbas públicas, ou — eu muito novo ainda, não sabia — se foi o roubo mesmo quem inventou Brasília, ou até — quem sabe você me ajuda a descobrir? — se o roubo de verbas públicas “faz parte mesmo do amor do ser humano pelo dinheiro alheio para saciar sua safadeza”. Aguardo manifestação sua. Por carta ou...
Abraço na Maria Angela e em todo mundo da casa (a família já está grande, não?).