Brasília, sábado, 27 de agosto de 2011. Há cinco anos morria D. Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana. Presidente da CNBB – Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, em tempos politicamente difíceis, sempre esteve ao lado dos oprimidos, dos mais necessitados e dos perseguidos políticos. Enfrentou com coragem os rigores da ditadura militar em sua missão cristã. Sei pouco de sua vida pastoral. Mas quem o conheceu não tem dúvidas: foi uma pessoa boníssima e de inteligência muito acima da média.
Leio que o atual arcebispo de Mariana, D. Geraldo Lyrio, vencido o prazo de cinco anos estabelecido pela legislação canônica, abrirá “o processo da causa de beatificação e canonização de D. Luciano”. A fonte é o jornal “O Estado de São Paulo”, em matéria assinada pelo jornalista José Maria Mayrink.
Que coisa extraordinária, os destinos de Lola e Dom Luciano reencontrando-se pelas mãos de Deus. D. Geraldo Lyrio determina a abertura do processo de beatificação de quem determinou a abertura do processo de beatificação de Lola! D. Luciano – futuro beato e santo não poderia estar errado quando, no dia 27 de junho de 2005, na “Comunicação às Comunidades e Paróquias da Arquidiocese de Mariana”, tornou pública a abertura do processo de beatificação de Lola, em nome da “vida edificante e santa de Dª. Lola”.
Vou repetir para enfatizar: D. Luciano – cujo processo de beatificação está sendo proposto por D. Geraldo Lyrio – disse que Lola teve uma vida SANTA. Que coisa linda esse momento que D. Geraldo Lyrio nos proporciona, ao reconhecer virtudes de vida santa de quem tinha Lola como santa! Talvez não caiba o silogismo aristotélico, mas as premissas convergem para primorosa conclusão que o leitor saberá inferir.
A reportagem do jornal “O Estado de São Paulo” afirma ainda que a principal condição para a abertura do processo é a constatação de fama de santidade ou consenso popular de que a pessoa tenha levado vida de santo. "No caso de D. Luciano, a fama de santo vinha desde antes de sua morte e está aumentando", disse D. Geraldo Lyrio. Prova disso seria a constante visita de devotos à sepultura do ex-arcebispo na catedral de Mariana.
E o que dizer de Lola, que desde a década de 1950 adquiriu – mesma contra sua vontade – a fama de santa a que se refere D. Geraldo Lyrio? O que dizer das infindáveis romarias ao túmulo de Lola, sempre enfeitado por populares, sempre cheio de pedidos e agradecimentos de graças alcançadas colocados na urna que lá se encontra?
A Igreja, certamente, não despreza essa realidade. Por isso, quando li a notícia da abertura do processo de D. Luciano, pensei: Agora vai! Agora o processo de Lola ganha um aliado importante, adquire relevância ainda maior a iniciativa de D. Luciano naquele nem tão distante 27 de junho de 2005.
O veículo da alegria trouxe também desapontamento e preocupação. Em certo trecho, a matéria informa que “D. Luciano está sepultado ao lado de outro provável futuro beato, d. Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana no século 19, cujo processo de beatificação corre em Roma. A arquidiocese tem mais duas causas em andamento - a de Monsenhor Horta (Joaquim Silvério) e a de Isabel Cristina Murad Campos.”
Trata-se, certamente, de um equívoco jornalístico. A tecnologia nos permite entrar no sitio eletrônico do Vaticano, Congregação para as Causas dos Santos, e verificar que três são os processos na Arquidiocese de Mariana, os dois acima e o de Floripes Dornellas de Jesus, a nossa querida ‘santa’ Lola.
Se estiver errado, gostaria de saber o que terá sido feito do processo de Lola, “Serva de Deus”, título que o Vaticano a conferiu ao aceitar o processo? Desapareceu? Foi arquivado?
O processo de Lola tem informações extraordinárias sobre sua vida em santidade, sobre os milagres a ela atribuídos (inclusive com registros em cartório), seu túmulo é local de visitas constantes de seguidores de todas as partes do País.
E sua vida? Sua vida é incomparável. Lola não presidiu nenhuma entidade. Nunca usou a mídia (ao contrário, renegou-a). Durante décadas viveu reclusa, recostada em seu catre tosco, na zona rural de uma pequena cidade do interior das Minas Gerais. Só com oração e fé distribuiu amor e graças, conforto e orações e edificou uma extraordinária obra religiosa de adoração ao Sagrado Coração de Jesus. A onda santa de Lola se espalhou para outras cidades, outras estados, outras regiões, até chegar ao Vaticano.
Lola deixou sua casa, no belíssimo Belo Vale, para a Igreja ampliar sua obra, conquistar novos fiéis, não para desapontar os antigos.
Será pouco o que Lola fez? E o que fez, é justo perder-se nos porões da burocracia? Ou será que a Igreja já não mais se interessa por ‘santos’ populares? Nada é mais real que a realidade. E a realidade é que Lola viveu uma vida em santidade e fez pela fé religiosa – sem estudo, sem latinismos, sem pompa e circunstância – o que poucos fizeram.