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Crônicas
Postada por:  Valéria Áureo,  em  19/09/2011 às 08h19
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Amy Winehouse
Ela era um ícone de voz e de estilo e poderia até lançar a sua grife de roupas e maquiagem, porque sempre teve público para o seu estilo pessoal.

19/09/2011 às 08h19

Ela era um ícone de voz e de estilo e poderia até lançar a sua grife de roupas e maquiagem, porque sempre teve público para o seu estilo pessoal. Público encantado, principalmente, pelo seu grande sucesso musical. À voz, podia-se agregar qualquer outra coisa, porque ela era divina. Mas ela não sabia disto, ou parecia ignorar, ou talvez, não podia suportar. Seu despojamento visual era um pedido de socorro, um grito de desespero, ou pânico, diante da magnitude de ser genial.

         Tudo leva a crer que Amy Winehouse parece ter se inspirado na cantora de ópera Maria Callas, que morreu em 1977, para compor o seu look marcante e definitivo, principalmente no enigmático e melancólico olhar das deusas intimistas.

        Se não havia espaço entre os cílios para o nostálgico fado, como Callas, Amy vertia sua dor de existir, o que parece insuportável para os mais sensíveis e depressivos corações, em blues, jazz e soul, misturados ao álcool e às drogas. Nada novo no universo em que os astros não podem falhar, nem sucumbir à sua condição humana. Os fãs cobram dos ídolos a divindade perene. Isto eles não podem suportar.

         As roupas retrô, o uso do delineador líquido para ressaltar os olhos de lágrimas que nunca poderão se secar e os lábios, quase sempre vermelhos, a faziam parecer com Callas. Lábios para blues, jazz, bebidas, beijos, dor e solidão.

         Se foi uma "estratégia" de imagem de Amy, ou de seus produtores, envolvendo voz e representação, no mais enigmático visual displicente, deu certo. Ela fez história, inclusive com a figura, que aos poucos, infelizmente, foi se deteriorando, sob os efeitos da droga. Antes disto acontecer (porque o homem costuma ser a traça de si mesmo), até a indústria da moda, esteve interessada nela; Karl Lagerfeld usou na passarela de Londres, no ano passado, modelos com os cabelos à la colméia - típicos de Amy - inpirados na sua audácia de ser atrevidamente uma imagem conceitual. 

         Sob a maldição dos 27 anos (ou a escolha inconsciente pelo suicídio  lento e gradual), apaga-se mais uma estrela, que não agüentou carregar a dor da própria existência, onde o sucesso é condição essencial para se continuar vivo. Não se admitem derrotas.

         Assim, como Amy, aconteceu com Kurt Cobain, líder da geração grunge, o vocalista do Nirvana que se suicidou com um tiro na cabeça, em 5 de abril de 1994. Aconteceu com Jimi Hendrix , um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Hendrix foi encontrado morto em um hotel, engasgado com seu próprio vômito, em setembro de 1970; aconteceu com Janis Joplin, a maior cantora de blues e soul da sua geração, que faleceu em outubro de 1970, possivelmente de overdose de heroína. Aconteceu também com Jim Morrison, o líder do grupo The Doors, que foi encontrado na banheira de seu apartamento, em Paris, em 1971 e com Brian Jones, o guitarrista dos Rolling Stones, que foi achado em uma piscina em 1969. Todos morreram absolutamente sós.

         Amy cantou, sofreu e andou pela rua da amargura, pela avenida dos sonhos partidos, onde gigolôs e prostitutas, podem roubar um beijo sem se arrepender... Andou por entre pessoas de sonhos destruídos. Andou onde a alegria que se encontra é emprestada, comprada, roubada, ilusória e artificial e ela não pode mantê-la por tanto tempo... Andou pela avenida dos sonhos partidos, onde sempre podia ser encontrada, sempre andando para cima e para baixo, despenteada e suja... Amy já estava morta!

         Amy deixou sua alma para trás, em uma antiga torre de igreja, como cantou.

         Amy andou e se perdeu no Boulevard of Broken Dreams...






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