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Crônicas do Santão
Postada por:  Geraldo Santão,  em  19/09/2011 às 08h03
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Coisas do Célio + o Hélio
Amigos, toda cidade pequena (Rio Pomba já está quase fugindo deste padrão; acredito que não nos resta muito tempo para chegar aos 50 mil habitantes, apesar de estarmos em 20 ainda), mas, continuando, toda cidade pequena tem e teve, sempre, os seus tipos humanos, as suas excentricidades, como se diz, e que eu acho muito interessantes — interessantíssimas —

19/09/2011 às 08h03

Amigos, toda cidade pequena (Rio Pomba já está quase fugindo deste padrão; acredito que não nos resta muito tempo para chegar aos 50 mil habitantes, apesar de estarmos em 20 ainda), mas, continuando, toda cidade pequena tem e teve, sempre, os seus tipos humanos, as suas excentricidades, como se diz, e que eu acho muito interessantes — interessantíssimas —, uma vez que são pessoas especiais, aquelas que têm personalidade bastante para sair do comum das outras e criar o seu próprio jeito de ser, de agir, pouco se lhes dando saber se as regras impostas pelo seu mundo comunitário estão ou não estão sendo cumpridas por elas. É adoravelmente curioso você saber, por exemplo, que o Célio + o Hélio não têm vergonha de nada nem de ninguém, no que toca a essas coisas bobas que são capazes de nos vexar a ponto de levar a óbito, se bobear. Logo nós, eu sei, que não somos quase nada melhores do que o Célio + o Hélio, até pelo contrário, se nós tivermos a coragem de apurar bem as nossas virtudes, sou capaz de apostar que não seremos nem um pouco maiores do que os dois gêmeos em questão (engraçado, eu ainda nem havia dito que eles são gêmeos e fizeram, já, 72 anos agora, em 23/07/2011). É difícil falar desses dois, porque eles têm histórias pra mais de quilômetro; não será à toa que coloquei o título “Coisas do...), porque, com certeza, não será só uma crônica.

                Bem, conheci os dois no primeiro ano do Ginásio, em 1954 (já lá se foram 57 anos...). Eles sempre foram naturalmente engraçadíssimos no seu modo de ser. Qualidades: pessoas extremamente pacíficas, nunca brigaram com ninguém. Que eu saiba, nunca! Não por falta de motivos, pois naquela idade, na adolescência (basta dizer isso) todos nós somos briguentos, quando o outro é mais fraco. Porém, com o Célio + o Hélio era diferente: o ofensor podia ser muito menor que eles, podia ofendê-los assim mesmo, e não havia reação. Só para dar um exemplo real, um dia falei com o Hélio da forma mais braba que alguém pode falar com a outra, estava com vontade de meter a mão na cara dele, embora corresse o risco de apanhar dele. Veja a resposta dele, enquanto saía de fininho para não brigar: “Annhhhãããeee, cê tá nervoooooooooso! A ideia (“A ideia” era uma expressão que os dois criaram para mostrar que o que estavam falando não era a sério, para que o outro não levasse a mal). Então ele disse: A ideia: que brabeza, ãeee!” E foi saindo... Sinceramente, eu fiquei com uma inveja dele que... Sabe por quê? Porque eu sei que ele não estava com medo de mim, é que eles não tinham mesmo, e não têm, de jeito nenhum, o espírito de vingança ou beligerância. É fantástico!

                Agora, nesses dias terrivelmente frios por que passamos já desde o outono, quando encontro um dos dois na rua estão sempre de calção ou bermuda e, quando muito, uma blusa fina já bem surrada e mais, invariavelmente de sandália de dedo. Como eu gosto muito deles, chego a ficar indignado! Mas a reação deles é apenas aquela de andar de braços cruzados, que sempre foi uma forma de amenizar o frio um pouquinho. Qualquer hora vou chegar lá com um monte de camisas de manga comprida, agora, tomara, só serão úteis no ano que vem. Ah, e alguns pares de sapatos usados, que tenho...

                Mas agora, semana passada, encontrei o Célio (eu consigo saber quem é um e outro, porque estudei com eles) ali em frente ao edifício Oraldes (aquele mais alto da cidade, por enquanto...). Havia outro comigo que não consigo me lembrar agora (é sempre bom uma testemunha; no meu tempo de auditor aprendi que qualquer verdade só é completa se tiver uma boa prova), mas não me lembro e, no caso, não é mesmo preciso.

                O fato é que o Célio me mostrou:

— Tá vendo aquele sinal privativo de deficientes ali?

— Huummm. Tô vendo.






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