A primeira vez que escrevi para O IMPARCIAL – “Acorda, Rio Pomba” - fui pretensioso no título e no texto. Chamava a atenção para três coisas que me incomodavam. A retirada dos altares de madeira da Matriz de São Manoel, a chegada do asfalto ao centro da cidade e o corte de casuarinas no caminho da Estação. Eu não tinha nada a ver com o que ocorria na cidade, era apenas um visitante ocasional, embora já casado com a filha do dono do jornal. Fui levado pelo impulso do coração.
Ao falar da língua negra do asfalto devo ter sido injusto com uma das pessoas mais educadas e cordiais da cidade, o prefeito Paulo Furtado. Quanto aos altares, o padre Valente, fazendo jus ao nome, e em uso da cultura de anos de seminário, desancou-me em belo texto de réplica, e ainda ironizou o uso exagerado do pronome que. Em defesa da minha reclamação socorreu-me o brilhante José Batista, e seu vasto conhecimento do papel da igreja nesse contexto histórico.
Sobre a retirada das casuarinas nem queixas nem reclamações nem apoio. Continuei, por anos, e ainda o faço hoje, embora com menos prazer, a percorrer aquele longo e bucólico caminho de areia, de costas para a cidade, desligado do mundo, tomado de verdes pastos, plantações e montes pela visão frontal e periférica. É como se não houvesse uma cidade ao meu reverso, com suas dores e prazeres, seus odores e afazeres. O caminho ainda está lá, mas é como se não estivesse.
Retiro do baú empoeirado, breve e solitário lamento em forma de poema, escrito no ano 2000 em homenagem ao poeta maior, Drumond, e ao caminho da Estação.
O caminho da Estação
Havia casuarinas no caminho da Estação
No caminho da Estação havia casuarinas
Havia uma ponte velha no caminho da Estação
No caminho da Estação havia uma ponte velha
Havia bois pastando ao lado do caminho da Estação
Ao lado do caminho da Estação havia bois pastando
Havia meninos brincando no caminho da Estação
No caminho da Estação havia meninos brincando
Era bucólico o caminho da Estação
O caminho da Estação era bucólico
Havia um trem no final do caminho da Estação
No final do caminho da Estação havia um trem
Havia um trem!
Havia casuarinas!
Havia uma Estação!
Havia bois pastando!
Havia uma ponte velha!
Havia meninos brincando!
Havia um caminho da Estação!