Amigos, essa minha obrigação quinzenal de escrever uma crônica é quase sempre café-pequeno; dá-se um jeito de começar, como estou fazendo agora, fala-se de coisas bobas quaisquer, até que, quase como por encanto, a cabeça resolve pensar um texto agradável e até rico, sem que saibamos de onde veio aquilo. Parece que já estava escrito, já estava pronto, por isso desce da mente como uma cachoeira de letras se esparramando pela página afora, sendo este o motivo de engolirmos algumas delas e causar os errinhos que todos cometem vez ou outra. Nossos anjos de guarda são os revisores que nos esperam lá na frente e consertam as falhas. Revisão não é um serviço para qualquer um, exige absoluta capacidade de concentração. Eu, por exemplo, não sirvo. Meu negócio é mesmo escrever essas mal traçadas linhas duas vezes por semana (para quem escrevia quatro por semana, eu deveria estar achando uma moleza) e só. E nem é só: quando termino, tenho aquela sensação do dever cumprido. Vá ser preguiçoso assim lá no meio...
Bem, mas o leitor não é bobo. A gente enrola, sim, quando está sem assunto. Mas não pode ser muito. Se o leitor descobre que não temos nada de literatura para oferecer, pode estar certo de que ele muda de texto, vai ler o outro. Por isso é que, assim como agora, vou mudar totalmente de assunto. Não posso deixar de registrar aquela desgraça de ontem com a Seleção Brasileira de Futebol. Não. Eu não acredito. Não posso acreditar! Donde já se viu, em qualquer época no mundo, os cinco jogadores escalados para cobrar os pênaltis correrem para a bola, cada um à sua vez, com toda a calma, chutarem e não fazerem um golzinho, um só, unzinho só, pelo amor de Deus? Respondam vocês, outra vez pelo amor de Deus, se alguém já viu uma desgraça com tamanha capacidade de destruição do amor próprio Nacional como aquele desastre futebolístico de ontem? Não se trata apenas de um jogo de futebol, aquilo foi como assistir à queda do próprio País, pior do que o Golpe de 64! Imagine assistir impotentes à desonra total do nosso povo... Que vergonha! Que vergonha! Que vergonha!... Não, não vou falar mais. O famoso Nelson Rodrigues já dizia: “A Seleção é a Pátria em chuteiras”, ou seja, neste País, o futebol é mais importante do que o Presidente da República. Pelo menos eu nunca vi ninguém saindo no tapa a toda hora por causa do Presidente, mas pelo Neymar, isso é todo dia. Mas... O que eu ia dizer?
Amigos, vamos começar de novo. Isto mesmo. É assim que devem proceder os cronistas. Não lhes será permitido, nunca, alegar falta de assunto ou assunto incômodo, pois ao cronista não lhe é dado escolher, o cronista é obrigatoriamente o contador de histórias do dia a dia, não é como o poeta que, se quiser, pode escolher o tema e o dia. E até a hora interior que melhor lhe sirva para poetar, eis que poetar exige, a meu ver, um sentimento forte e presente no momento da construção da peça que se quer criar, ainda que tal sentimento forte tenha vida própria, detenha o controle da capacidade de criar (o verso cai pronto do céu). O cronista, não. Ele não pode deixar passar intocado qualquer acontecimento à sua volta, ao redor do seu mundo. O cronista é um vigilante eterno. Uma mulher bonita que passa e sabe pisar (saber pisar, para uma mulher, é 90% do seu sucesso) é um prato cheio para um bom cronista. Mas um cego pedindo esmolas, ou um dia de chuva torrencial, ou um saboroso frango caipira com quiabo, ou um velório... Tudo o cronista é capaz de dar forma e beleza, dependendo da sua capacidade criadora.
E precisa saber — o cronista, claro — a hora certa de fazer um parágrafo. Ah, meu Deus, como é importante saber a hora certa em que o leitor quer parar e respirar!... É, meu amigo, quem escreve precisa estar junto do leitor, do outro lado, lendo como o leitor lê, pois você está escrevendo para ele, não é para você. No caso em questão, e por exemplo, eu já estou percebendo que o meu espaço está acabando. E como se fosse um bom novelista da Globo, já tenho que pensar como será o fim desta novela aqui. Não sei como vou fazer ainda, mas já estou mais do que acostumado com isso. É sempre bom fazer um final falando de alguém importante... Eu poderia falar no Lula, mas, para falar a verdade, boa parte dos meus leitores não gosta do Lula. Não será por isso que vou deixar de considerá-lo um gênio da atualidade mundial, mas, para os citados leitores, já estou falando demais, eu sei. Melhor é falar dos presidentes dos Estados Unidos, que esses aí os brasileiros, não sei por quê, acham que são muito mais importantes do que nós. Até o Bush eles acham! É lavagem cerebral. Mesmo com os Estados Unidos lá no buraco, sem dinheiro até para o cafezinho, os brazucas americanistas — ainda os há, nem que seja por ignorância — reverenciam como súditos um garçom americano, mas não se dobram a um intelectual brasileiro. Ignorância mesmo.
E tem mais: eles já aprenderam também a desvalorizar o Obama. Porque é negro. Então me sobra o quê? Afinal, acho que estou entrando numa camisa de onze varas aqui e já não sei como terminar. Mas ainda me resta Abraham Lincoln. Este não tem defeito. Este foi, talvez, o melhor presidente estadunidense junto com Kennedy. Aliás, já li muito sobre Lincoln e vai ser ele que me poderá desembaraçar nesse cipoal literário em que me meti aqui, quer ver? Certa vez, diante de uma situação parecida com esta em que me encontro (um labirinto. É por isso que a maioria diz que é difícil demais escrever), Lincoln recomendou o seguinte: “É melhor calar-se e deixar que as pessoas pensem que você é um idiota do que continuar falando e acabar com a dúvida”. Bem feito pra mim, que ando precisando caprichar mais!...
PS: Que pena que os norte-americanos tenham a mania de assassinar todos os seus grandes presidentes!... Pronto, agora parei mesmo. Tchau.