Morreu Itamar Franco, dias depois de
completar 81 anos. Aos 36 anos, em 1967, foi eleito prefeito de Juiz de Fora.
Renovou seu mandato na eleição de 1972, no célebre pleito decidido na última
urna, voto a voto, contra o então desconhecido Francisco Antonio de Melo Reis,
inflado por forças federais dispostas a retirar o antigo MDB do poder na
Manchester Mineira, sede da 4ª Região Militar. Em 1974, quando Tancredo Neves
temeu disputar o Senado, o jovem e nacionalmente desconhecido Itamar aceitou a
disputa, e mais uma vez derrotou a Arena. Itamar desafiou as impossibilidades
políticas, e as derrotou, sempre.
Fiel aos seus princípios e convicto
em seus ideais, sem fazer concessões à ética e à dignidade, Itamar rasgou a
teoria de Max Weber, para quem o governante quando chega ao poder se vê
obrigado a abandonar a ética da convicção em troca da ética da
responsabilidade. Mas Itamar foi Weberiano quando governou exercendo o poder
legal. Itamar não pediu para esquecer o que escreveu, foi sempre convicto e
responsável. A chapa improvável – Collor e Itamar – resultou na sua presidência
da república. Logo, a grande mídia quis transformá-lo em uma figura folclórica,
e taxou seu governo de “república do pão de queijo”. VEJA, estampou na edição de
estreia do governo Itamar: “Início Pífio”. Itamar não reagiu, apenas governou,
e VEJA, ao final do governo, envergonhada, estampou em dupla manchete: “Os anos
Itamar: o balanço de um presidente que deixou o Brasil melhor”.
Muitas histórias ilustram bem o
republicanismo de Itamar, sua correta maneira de ver e separar o público do
privado, seu instinto político e social. Sua simplicidade, no cargo e fora
dele, era taxada de atitude provinciana. Alguns o taxam de ingênuo, por não ter
feito fortuna na política, não possuir emissoras de rádio e transmissoras de
TV, por ter um patrimônio que cabe dentro de sua renda acumulada de prefeito,
senador, governador e presidente da república.
O Brasil perdeu o único político que,
tendo ocupado todos esses cargos, pode ser taxado de honesto. Itamar é e sempre
será o mais honesto dos políticos brasileiros de sua dimensão, com a sua
maneira peculiar de governar, com seu jeito íntegro de ser.
O registro histórico do período
Itamar há de lhe fazer justiça. Morreu quando começava a incomodar o Senado com
seu comportamento retilíneo, no meio de uma oposição constrangida, frágil e
enriquecida na ação política.
Itamar merece todas as homenagens dos
homens de caráter. E O IMPARCIAL se junta a elas. E todas ainda serão modestas
diante da grandiosidade de seu comportamento simples e humano.
Itamar não foi um exemplo. Itamar é
um exemplo. Itamar honrou o exercício da presidência da república. Honrou a
história de Minas e do seu povo. Honrou a Zona da Mata e todo povo desta
região. Itamar é o avesso de muitos políticos que hoje o citam como exemplo. O
seu governo deixou o Brasil melhor. A sua partida deixa o Brasil menor.
Roberto Nogueira
Ferreira
LEGENDA 1 – Ex-presidente e ex-Senador Itamar Franco (Crédito Divulgação)