No meu tempo ia-se à escola para aprender. Tínhamos confiança na capacidade inquestionável do professor, porque nele depositávamos a esperança de bem aprender para a vida. Escola era o templo do conhecimento, onde chegávamos levados pelas mãos confiantes de nossos pais. Mas isto foi antigamente, no tempo em que professor sabia e ensinava; aluno não sabia e aprendia. O mestre tinha como respaldo livros, gramáticas, dicionários... E como o professor sabia!
O mundo enlouqueceu. Erro gramatical é chamado de preconceito linguístico. Acho até se diz que o professor que corrige os erros do aluno está cometendo bulling. Corrigir uma prova, cobrar um dever é quase um constrangimento moral contra o aluno indefeso. Nisto o professor pode até ser incriminado. Deixemos de absurdos...
Alegam os autores de um livro didático: “o estudante que fala errado (sic) com bastante fluência corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”. Ora, o aluno tem que falar erradamente e com bastante desenvoltura, para ser vítima de preconceito. ,Falta de responsabilidade dos autores? Há muito mais que isso. O que houve foi um crime hediondo contra a educação. Pobre Pátria!
Segundo os padrões educacionais tutelados pelo MEC, o que eu posso compreender é que acertos gramaticais são armas de preconceitos lingüísticos. Sei lá... Escola de hoje tem tanta coisa esquisita, não é mesmo? Tem arma de verdade, bala que mata, assassino em série, aluno que agride professor, ou que o ameaça de morte. Escola, onde os alunos erram e o professor não pode mais corrigir, sob pena de ser considerado radical, ou por medo de represália. No meu tempo o professor era respeitado como entidade sagrada e a bala era de hortelã, comprada na cantina. Pobres estudantes!
“Os livro” nascidos sob o irônico título “Por um Mundo Melhor”, agora adotados pelo chamado Ministério de Educação me assustam, me fazem ficar cada dia mais desiludida e eu não posso me esquecer do que me pai dizia: minha filha, com o passar do tempo, o homem pede a Deus para abreviar seu sofrimento... Eu vejo que ele tinha razão. Vamos ficando enojados com as aberrações e os descalabros. Eu me pergunto: com que autoridade e em nome de quem os autores violentam a última flor de Lacio?
Se os professores são mal pagos, para ensinar o certo e aceitam o errado, por comodismo, ou medo, como agora avaliza o MEC, o baixo salário faz sentido. Não ensinam direito, não recebem direito.
Os autores do crime linguístico aprovado pelo MEC usam um argumento imoral para dar licença para o assassinato da língua: dizem que quem usa "os livro" precisa ficar atento porque "corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico". Pois aí está: nova modalidade de preconceito. Não se trata de preconceito linguístico! Trata-se, pura e simplesmente, de ignorância, de falta de base. Puro artifício para não contrariar o aluno. Os professores estão com tanto medo dos alunos, que são tão tolerantes? O erro pode ser aceito? Não pode, não! Está errado, é ignorância, fruto da má formação educacional, resultado da lei do menor esforço do educador em corrigir erros, ou, que me perdoem os bons professores, incompetência de alguns em reconhecê-los, até mesmo os menos gritantes. Afinal, é muito mais difícil (ou arriscado) ensinar o certo do que aceitar o errado, com o qual o aluno chega à escola. Partindo desta premissa dos autores (deste absurdo), de que o errado está certo, é o aluno que vai à escola, para “ensinar” o professor a escrever e a falar “corretamente”. Só falta me dizer que os autores do crime contra a Língua Pátria declarem que não aceitar como norma “É nóis mano, a gente conhecemos” também corresponde a um preconceito linguístico. Não está longe não. “Escrever errado (sic) está certo e é correto falar errado, sustenta a obra aprovada pelo MEC”.
É obrigatório respeitar normas que custaram anos de evolução para que as pessoas pudessem se comunicar perfeitamente com as outras. Norma culta é o elemento unificador de uma Nação. Norma culta é elemento agregador e garantidor da unidade nacional. Apesar de suas dimensões continentais, o Brasil se manteve e se manterá Nação única, graças ao poder da Língua. Compete ao professor ensinar o idioma, no seu registro culto, para que o aluno o ame e faça bom uso da escrita e da fala. Não fosse este o destino do professor, não seria necessário ir à escola.
Quer destruir um país e submeter seu povo? Destrua a sua Língua. Matar o idioma viola a nação inteira e compromete o seu futuro como Pátria. Condenar esta violação está longe de ser preconceito. É um critério político e cultural. Que professores prefiram a preguiça, ou o medo ao ensino, já é péssimo. Que o MEC os premie, é crime, concluiu brilhantemente Clovis Rossi na FOLHA DE S. PAULO.