Já faz algum tempo, mas um dia o Santão levou-me, em seu “velho” fusca, para conhecer o “Sítio Alma do Bezerro”. Subiu ao alto de uma colina e ficou espiando a vista, doce descortinar de emoções. Silenciosamente. Daí eu escrevi uma quadra e ela ficou guardada até hoje: Do alto daquela colina/Até onde a vista alcança/O homem cumpre sua sina/É outra vez criança.
O que nos remete ao passado, ao nosso mais íntimo passado? Muitas coisas, certamente. Em nosso olhar-menino os rios são imensos mares, ameaçadores, serpenteando altaneiro por vales e montes. Medo e êxtase. Sístole e diástole. Aos olhos do menino-adulto, ou do adulto-menino, os rios têm a dimensão da saudade, mesmo quando a dimensão humana o transforma em pequeno curso d’água. Daí eu escrevi outra quadra e ela ficou guardada até hoje: O homem em busca do passado/Ou será o contrário?/Absorto, vê o que ninguém vê/Sonha acordado.
À sua frente o rio não corre, anda, sem pressa, mas não voltará a passar por ali, jamais. Lá vem outro rio, gravando no chão, em pintura ocre sem fim, os limites dos animais e dos homens. Mas isso tem pouca importância. Importa olhar o rio de hoje e ver o de ontem. E o homem em seu sonho acordado, alucinado, já não tem olhos para nada, o que vê é sua mente refletida. Daí eu fiz mais uma quadra e ela também ficou guardada até hoje: As criaturas da mente/Anjos ou demônios/Disfarçam a realidade presente/Fustigam recônditos.
Enquanto o rio passa lá embaixo, canários da terra e bois mugindo completam o cenário. O homem reencontra a infância. Já não é apenas mais um homem. É apenas mais homem, no choro que segura e cala.