Amigos, a festa da Exposição deste ano extrapolou todos os limites, bateu com folga todos os outros eventos anteriores ali realizados. Pelo menos é o que diz a voz do povo e o ditado não deixa por menos: “A voz do povo é a voz de Deus”. Sinceramente, eu nunca vi nada igual aqui antes, que implicasse em ajuntamento, multidão. Observe-se que todas as entradas da cidade (quem vinha de Juiz de Fora, Belo Horizonte, Ubá...) estavam congestionadas, o estacionamento do Parque de Exposição lotado, assim como as ruas, quase todas, estavam também lotadas de carros. A programação de shows, cá pra nós, foi um dos pontos chave para o sucesso: Almir Sater e Paralamas do Sucesso, para citar só dois, já justificam a multidão.
Sinceramente, eu não sei como se pode governar um país, um estado ou mesmo um município, pequeno que seja, sem oferecer ao povo, ainda que uma vez ou outra, um espetáculo qualquer e até, se possível, um baita show como o que tivemos agora, para lavar de vez, para o ano inteiro, a alma do cidadão, desde o mais pobre e desprotegido até o mais rico e considerado independente, eis que independente mesmo, isto ninguém é, amigo. Um indivíduo, por mais poderoso que seja, não pode fazer uma festa com este nível de calor humano, de multidão, se o povão não quiser atender ao seu chamado ou à sua ordem. Daí a capacidade que deva ter cada governante para fazer o seu povo feliz, alegre, ou, em caso contrário, apático, triste e infeliz. Parece uma coisa à toa, mas é necessário que o governante tenha muito tato para saber o que, exatamente, que seu povo está querendo naquele dado momento e satisfazer-lhe as vontades. Por isso a importância das festas que causem grande repercussão na redondeza, como esta nossa agora. As pessoas, em geral, são bairristas, elas querem ser invejadas, querem ver sua cidade sendo notícia de sucesso na região. Qualquer cidadão sente-se um pouquinho dono da sua terra. É sua, a terra que está vencendo. Logo, é ele que está vencendo. Os grandes líderes sabem entender o seu povo, sabem o que ele quer. Às vezes ele não quer comida, ele quer vitórias e foguetes. Temos visto o Pombense mandando no futebol. Isto é importantíssimo, tanto quanto comer, beber e morar. Só depende da hora. Mas a bola hoje está com os noticiaristas d’O Imparcial narrando o evento Exposição. Vou ficar com um fato aparentemente sem valor algum para muitos, mas que, para nós, escritores, poetas, cronistas (a turma toda) não passa batido de jeito nenhum; são ocorrências às vezes nem notadas pela maioria, mas, para o poeta, o fato ganha qualidades de revelação dignas dos mais notáveis estudiosos da alma. Vejam bem:
Como sempre, fui escalado por minha netinha Isabela para levá-la ao Parque de Exposições. Vocês sabem que Isabela é a minha paixão maior. Nada me importa mais do que a vontade dela. Sei que sou, declaradamente, um destruidor da boa educação familiar, exatamente pelos defeitos terríveis que têm os avós: serem permissivos.
De início ela me exigiu que comprasse dez bilhetes de ingresso aos diversos brinquedos de um parque instalado lá, onde os preferidos dela, desde o ano passado, eram aqueles carrinhos que se trombam, desviam, trombam de novo, embolam... É uma “bateção” sem fim. A criança roda o volante do carrinho para um lado e para o outro, mas nem sempre o carrinho obedece. São mais ou menos uns quinze carros dentro de um espaço tipo 8x10 e é por essa premência de espaço, também, que ocorrem batidas a todo momento. Porém, esse bate-bate acaba provocando um frisson na turma, as pessoas que estão dirigindo são tomadas de uma sensação incitante provocada pela ansiedade produzida pelo cuidado de não bater, mas, ao mesmo tempo, vem uma trombada de trás e lá se vai o cuidado que se tomou. Mas o piloto logo retoma o jogo, torce o volante daqui, torce dali e, o mais importante: não sobra tempo para você inventar nada; parece ao piloto que o certo é ele se defender, sair da batida do outro. Mas ao sair, ele acaba batendo num terceiro... É um doce inferno, sabe? Porque é incitante e imprevisível... É formidável. Até eu, no ano passado, dei uma volta no tal carrinho. Mas o show, para mim, não foi a Isabela, que trombou sozinha por lá e se virou muito bem. Para se ter uma ideia, ela gastou seis bilhetes. O show foi um sujeito aparentando 35 anos, que entrou na pista com seu filho pequeno (o carrinho tem dois lugares e um volante). Com muito cuidado ele ajeitou o filho em frente ao volante, sentou-se do lado, colocou o braço esquerdo atrás do pescoço do menino, parecia explicar ao garoto sobre o volante ( e eu só olhando), até que deu a partida. Começaram logo as trombadas e eu via vaidoso a netinha quebrando pra cá e pra lá, bate daqui, sai por lá, encapetada a danadinha. Mas nem a netinha me livrou de prestar atenção no tal sujeito com o menino que, a esta altura, já tinha tirado o braço esquerdo do pescoço do menino e já se tinha entregado ao exercício sério e único de dirigir o carrinho, e tromba daqui, bate dali, desvia de lá, e o menino, tadinho, estava quase esmagado no cantinho dele, quase sendo jogado para fora do carrinho, totalmente esquecido do pai que, tendo se encarnado no menino que um dia foi, dava tudo que tinha no volante, com os olhos arregalados e a cara que era ansiedade pura... Ele estava completamente tomado pelo menino que um dia foi. Tanto assim que, numa das paradas, ele desceu e puxou o menino de galope, foi correndo comprar mais bilhete (o menino puxado pelo braço quase morria) e montou novamente no carrinho. Aí, ele já nem botou o braço no pescoço do menino, mas colocou-o do outro lado e ficou, ele próprio, de frente para o volante. Não lhe importava mais parecer um papai que levava o filho para se distrair. O brinquedo agora era dele. E nem te ligo! Começou a “bateção” e ele firme, a gente via que ele acreditava sair vencedor daquele negócio. A cara de ansiedade era mais nítida ainda. O seu desempenho melhorava e ele sabia. Foi assim que a Isabela rodou seis vezes, o mesmo que ele, ela parou e nós o deixamos lá com o mesmo entusiasmo, ou até mais, do que quando começou, e rodando mais...
Será que ele percebeu como gosta de ser criança o menino que ainda mora nele?