Eles nos dão uma lição de vida. Mas há quem pense que eles são uma visão da morte. Muitos os vêem como um símbolo do mal. Mas há algo mais da vida, do que o preparo para o grande final?
O papel social dos Urubus (estou falando dos Urubus-Ave) nunca foi devidamente reconhecido. Eles são uma espécie de limpa-trilhos social, nervo torcido da consciência ambiental. Onde tem sujeira que embrulha o estômago da hipocrisia humana, lá estão eles sempre solícitos. Não querem nada em troca por esse trabalho insano, talvez apenas o direito de viver em paz. Mas tem gente que acha caro sua presença “repugnante”.
Na aridez do Planalto Central um Urubu (fêmea, macho ou qualquer coisa do gênero) ocupou o pequeno jardim externo no alto do andar 17 de um dos prédios onde presto minha consultoria. E lá não fez um ninho. Apenas deitou dois ovos no meio de pedras e plantas. E sobre eles se deitou. E dos dois ovos nasceram dois filhotes, que o Urubu (mãe?) trata com invejável cuidado e carinho.
Quando a mãe sai em busca do almoço, os filhinhos se encostam na parede, sem alvoroço. Instinto de proteção ou recomendação materna? Pouco importa. Ficam ali a palmos de um tombo de 17 pavimentos. Mas não é precipício. É, apenas, da vida, o início.
A mãe voa e volta. Volta e voa. E os dois ali, à toa. Aguardam a esperada ordem materna: Voem meus filhos, voem, desapeguem-se de mim. Batam suas asas em busca de seu destino, seja ele qual for. E nesse desapego a Urubu-mãe encerra uma grande lição de amor. Encerra não no sentido de ponto final, mas de começo de uma nova vida, porque não é o fim de uma jornada, mas ponto de partida.
Os Urubus-Ave, ao contrário dos Urubus-Humanos, merecem respeito e reverência. Afinal, há ou não no trabalho deles algo que supera a própria necessidade e a aparente demência? Talvez eles nem saibam, mas não serei o primeiro a dizer que tudo que move é sagrado.
Enquanto isso os humanos-urubus, sempre à espreita de algum incauto, não sabem que esse momento, ao contrário de alimentar e crescer, só enche suas barrigas redondas, sem matar a fome ou saciar a sede. Tem sido sempre assim: urubus-humanos querendo tomar alguma coisa do próximo. Na ilusão do crescimento esquecem que o que comem não é fermento, é veneno que os aproxima do fim.
Vivam, pois, em paz e liberdade, os Urubus-Ave, porque é só isso o que querem. Para eles basta voar, voar, apreciar bela vista, porque o resto, bem... o resto se conquista.