Houve um tempo em Rio Pomba. Nesse tempo a sociedade se encontrava no Clube dos 30. Lá, no final da década de 1960, ouvi o conjunto Solfas tocando Beatles no baile da Rainha do Fumo. Conhecia só duas pessoas em Rio Pomba. Um ex-companheiro de CPOR e uma jovem que passava férias perto de minha casa em Juiz de Fora.
Junto com dois aventureiros meti-me numa velha Rural Willys. Contornamos a praça e paramos no primeiro bar com cara de bar. Mais tarde fiquei sabendo que ele atendia pelo sugestivo nome de “Copo Sujo”. Bebemos umas “350” doses de um Uísque fabricado em Juiz de Fora, no Bairro Bonfim, logo após a Igreja Santa Rita de Cássia, pelo qual pagamos hoje o equivalente a R$ 5,00 a garrafa. Era um tempo que não tinha lei seca, cinto de segurança, pardal ainda era só um pássaro, carrinho de bebê era colo de mãe e lombada a gente desconfiava o que era, mas tinha pouca prática. E não acontecia nada.
Só me lembro muito vagamente de uma jovem que rodopiava ao som de And I Love Her, aquela música dos Beatles que começa com I give her all my love (eu dei a ela todo meu amor) e segue numa baladinha que devidamente embalada pelo malte fabricado no Bonfim me levou lentamente ao Nirvana – que o Supremo Buda descreve como estado de calma, paz pureza de pensamento, elevação espiritual. E queria mesmo era materializar o meu Nirvana daquele sábado à noite numa dança de rosto colado com aquele rosto angelicalmente belo. A parte consciente que me restara soprou-me alguma coisa ao ouvido e eu entendi que era muita ousadia para quem ficara no “Copo Sujo” até às 2 horas. Contentei-me em ficar ali, loving her, ao som de outras músicas dos Beatles. Esse era o Clube dos 30.
Foi assim que descobri o Clube e sua elegante sociedade. Anos depois, recém casado com aquela bela jovem de rosto angelical, Secretário da Fazenda da Prefeitura de Juiz de Fora, fui barrado por um zeloso presidente pelo prosaico motivo de não usar gravata, ainda que de terno. Esse era o Clube dos Trinta.
Vieram depois as memoráveis festas de Zezé e Rosalina, um furacão de alegria que aportou em Rio Pomba junto ao inesquecível César, do Jarbas e da dona Helena Furtado. Dupla imbatível. Pessoas indispensáveis a qualquer sociedade que acredita no amor, no sorriso e na flor (em homenagem a Tom), na elegante e educada convivência, na arte do encontro e do desencontro (em homenagem ao Vinícius), ao som de um bolero do Trio Iraquitan. Tudo em nome da santa, indispensável e saudável boemia. Esse era o Clube dos Trinta.
E as inesquecíveis festas do O IMPARCIAL? A sociedade dignamente vestida, simpaticamente educada, homenagens grandiosas posto que singelas. O retorno dos filhos a terra querida, a alegria de ver, rever, conviver, viver. Esse era o Clube dos Trinta.
Nem sei mais se há ternos e gravatas. Nem vestidos longos e brincos de princesa. Nem sei se há sapatos bem engraxados. Nem camisas bem engomadas. Só sei que não mais há grandes bailes. Nem sei mais onde coletivamente se convive com dignidade, educação e civilidade. O coletivo se dá ao ar livre, em brancas cadeiras de plástico, bermudas e camisas abertas, tênis precisando de uma lavanderia, cervejas de quinta categoria, sem um pingo da dignidade de um copo “Copo Sujo”, último reduto, símbolo da resistência de um tempo que não tem volta, enquanto os outros não têm ida. Tudo ao som de algum ruído que insistem em chamar de música.
Já não sei de mais nada. Sei que há saudades, muitas.
N. da R.: - Esta crônica saudosa de Roberto Nogueira chegou-nos “on line” na noite de quarta-feira última, quando já havíamos decidido pela realização da tradicional festa do O IMPARCIAL este ano para o próximo mês de setembro. Quanta coincidência!