Escrever é como pescar de tarrafa. Primeiro, tem de preparar a tarrafa, conferir se a rede não está perfeita, sem rasgos. Depois, tem de escolher onde jogá-la. Saber se o rio dá peixe. Tudo bem pensado joga-se a tarrafa (texto) e ela afunda lentamente até perder de vista. Depois que a tarrafa saiu de suas mãos, alea jacta est, como diria Júlio César, os dados estão lançados.
Com o texto é mais ou menos a mesma coisa. Depois que ele sai no O IMPARCIAL, os dados estão lançados. Como bom pescador você fica quieto no seu canto, porque o texto já não lhe pertence mais (como se tivesse pertencido algum dia). Depois de certo tempo o pescador recolhe a tarrafa, lentamente. Peixes pululam na vã ilusão de cair da tarrafa e voltar ao rio. Juntos aos peixes frescos costumam vir botinas velhas, ferraduras, pedaços irreconhecíveis de pano. Quantas vezes também queremos sair de um texto e não conseguimos. Ele toma posse de nossa mente e fica latejando qual enxaqueca, incomodando, até descobrirmos o visgo de seu sentido.
Costumam chegar até nós, escrevinhadores, depois do texto sair no jornal, por meio de tarrafas eletrônicas, comentários dos leitores (recebo vários), todos bem recebidos, porque o leitor não é espelho do escritor, tem opinião própria e não só pode como deve exprimi-la. Peixes frescos ou botinas velhas não incomodam quem escreve, pois qualquer autor sabe que não tem domínio sobre a reação do leitor (e nem deveria ter), pois essa é a graça do risco de submeter o texto a leitores anônimos, quais, quantos? É preciso o contraditório, a impressão refletida, a leitura ao avesso, é preciso tudo que não for unânime, pois o leitor não é o espelho de quem escreve. É preciso ser iluminista, usar a capacidade de pensar, ter senso crítico. Importa na vida ser livre para pensar, não fazer parte de nenhuma boiada, ou, em sendo parte, sentir-se único.
O Santão já disse que esse exercício quinzenal é uma quase irresponsabilidade. E também já confessou que às vezes senta-se à frente do computador e fica ali parado esperando que alguma boa ideia o socorra. Quem tem talento, como é o caso, vence o risco do improviso porque é capaz de prender o leitor na primeira frase. A propósito, se não se prender na primeira frase o leitor muda de coluna, e isso é mais comum do que se pensa.
O mestre Graciliano Ramos (Memórias do Cárcere), alagoano, disse certa vez: “Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa”.
Nem todo texto é o que parece ser, pois, se for, onde estaria a graça de lê-lo e relê-lo em busca de múltiplas interpretações, de vesti-lo com indumentária que o autor jamais imaginou, de poder chorar onde o autor riu e rir onde ele chorou.
É preciso saber ler. Por isso, modestamente, acrescentaria ao mestre Graciliano: Quem se mete a ler também deveria fazer como as lavadeiras das Alagoas.