Amigos, deixe-me confessar-lhes uma coisa: hoje abri meu livro de crônicas “A Alma do Bezerro”. Abri em cima de uma crônica que publiquei em 12.05.1996, com o título “A INVEJA”. Resolvi ler. Olhe: eu não pude resistir ao desejo de comparar, ainda que a mim mesmo me pareça um tanto quanto ridículo o fato de eu achar bom o meu próprio texto. Vou explicar: Eu, desde pequeno, gosto muito de arroz-doce com aquela canela em cima... Hum... Mas muito melhor ainda foi quando compramos a nossa primeira geladeira. Aí (meu professor de português não gostava que eu usasse esse “aí”, dizia que era condenável pela norma culta... Sei lá. Mas uso assim mesmo), aí, repetindo, quando eu descobri que arroz-doce de dois, três dias na geladeira era uma das maiores delícias do mundo, passei a duvidar das coisas feitas na hora, ou no dia... E foi exatamente o que eu senti, quando li uma crônica que eu escrevera há 15 anos. Achei-a muito melhor agora do que antes. Eu até convidaria meus colegas cronistas a relerem suas próprias crônicas... Quem sabe sentirão o mesmo paladar? Inclusive, deixe-me olhar para o lado aqui nesta página para ver se enxergo o Roberto Nogueira. Dei falta dele na edição 4689 e o Roberto é titular absoluto, não pode faltar, a menos que seja uma contusão (ou confusão?) muito séria. Sem Roberto, não. Você está aí, amigo?
Bem, mas voltando ao livro, e ao reler “A Inveja”, descobri que escrevi outras crônicas na mesma série, pois escrevi sobre os sete pecados capitais, e lá estão também as crônicas sobre a Gula, a Ira, a Avareza... Todas elas. Mas a inveja é um tema que não fica velho, sô. O problema da inveja é que a danada não sabe esconder-se. Muito pelo contrário, ela tem que se mostrar arrogantemente. E na maioria das vezes o faz de forma cruel, fria, fingida e mentirosa, saindo de porta em porta a levar uma história inventada, feita sob medida para satisfazer somente ao invejoso. Este, assim, depois de alardear aos quatro cantos do mundo a sua história falsa, que esconde o seu caráter verdadeiro, fica na esperança de que o invejado vá sofrer tanto quanto o invejoso desejou. E só assim o coração doentio do invejoso pode sentir-se feliz.
Mas o invejoso, sempre mentiroso — é bom repetir —, fica tão cego na sua fria malvadeza que passa a acreditar que as suas invenções são, de fato, verdadeiras. Aí ele não se faz de vítima, mas — veja bem o absurdo! — ele acredita que é vítima, quando o invejado é que é a verdadeira vítima de toda essa trama urdida pelo invejoso. É maquiavélico, pois ele criando ataques e perseguições que nunca existiram, acredita e faz acreditar que é ele o pobre coitado que está sendo massacrado cruelmente por pessoas que se dizem de bem. Nessas alturas já é caso para ser resolvido por psiquiatras, pois o fundador da psicanálise, Sigmund Freud, já estudava, desde o princípio de sua carreira, o problema do invejoso e o mal que ele causa a uma sociedade. Lembram-se da história de Caim, que matou Abel por inveja? E isso vem de quanto tempo?
Alfredo Panzini disse que “os milionários não teriam nenhum prazer, se lhes faltasse a inveja do povo”. Tudo que a inveja faz é sério. É caso para psiquiatra mesmo. A inveja é a dor que o invejoso sofre por causa do sucesso do outro. Disse a cantora Madonna que tem inveja das pessoas que não têm inveja de nada. Pelo menos, foi sincera. Eu também costumo chamar de inveja boa, quando vejo um texto excelente de um escritor qualquer e que eu gostaria de tê-lo escrito. Mas a isso a gente deve chamar de admiração, porque, na verdade, qualquer inveja é uma desgraça. Aliás, sem querer esmiuçar muito, o luxo atrai a inveja, mas não atrai o respeito. Estão vendo em que nível está uma coisa e a outra coisa? Pessoas de respeito só precisam da verdade.
Os homens de mérito não precisam cuidar da sua fama; a inveja dos tolos e dos petulantes se encarrega de propagá-la. Os homens de mérito não precisam explicar nada a ninguém, pois os seus amigos não precisam de suas explicações; já os inimigos e os invejosos, não querem saber delas. Logo...
Mas, para terminar, eu fico com a definição do extraordinário escritor, Zuenir Ventura, sobre esses sentimentos, digamos, reles e desprezíveis que povoam as mentes de pessoas infelizes e pobres de caráter: “Ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é querer que o outro não tenha”.
Feliz ou infelizmente, meus amigos, para quem começou a falar em doce e se vê terminando com amargor, fica a lição: O segredo de uma vida honrada é saber navegar entre o mel e o fel, sem se deixar lambuzar de nenhum dos dois. Bom domingo.