Houve um tempo em que os negros americanos tinham de ceder o lugar aos brancos nos assentos dos ônibus. Até o dia em que a negra Rosa Parks, “convidada” a ceder o assento a um branco simplesmente disse não. Isso foi no dia 1º de dezembro de 1955, na cidade de Montgomery e marcou o início da luta contra a discriminação racial. Um jovem pastor negro, ainda desconhecido, Martin Luther King Jr, após a atitude de Rosa Parks passou a incentivar os negros fiéis de sua igreja a fazerem o mesmo. Luther King é aquele do célebre discurso “I have a dream”. Rosa Parks morreu de causas naturais já em 2005. Luther King foi abatido enquanto discursava.
Malcolm X, negro americano nascido em Omaha em 1925 é outro ativista dos direitos dos afroamericanos. Fundou a Organização para a Unidade Afro-Americana, baseada em conceitos socialistas, e isso nos Estados Unidos é quase uma sentença de morte. Há quem o acuse de racista, pois pregava a supremacia dos negros, mas isso é outra história. Na origem de sua ação está a morte do pai, quando ele tinha seis anos, violentamente espancado até a morte por motivação racista.
Cassius Marcellus Clay Jr., nasceu em Lousville em 1942. É o Pelé do boxe, o maior pugilista de todos os tempos. Irreverente, livre, leve e solto no modo de lutar, fez do boxe um evento admirável de se ver, uma dança e não uma luta. Minha admiração por ele não é pelo que foi no boxe, mas por suas posições políticas. Depois de ganhar tudo – ouro olímpico, título mundial... – foi convocado para lutar no Vietnã. O negro Cassius Clay simplemente recusou e mandou um recado curto e grosso: “Essa guerra não faz o menor sentido. De hoje em diante me chamo Muhammad Ali-Haj”. Os reacionários americanos reagiram. Tomaram-lhe as medalhas e os títulos, mas sua honra continuou intacta.
Eu já citei quatro negros e poderia estender minha lista sem fim, porque meus ídolos são negros, mas não porque são negros, talvez porque a história de luta deles é admiravelmente bela. Mas sou fixado mesmo em Rosa Parks. Coloquem-se no lugar dela. Você é negro e mulher; está sentado no banco do ônibus do Cidinho; entra um branco fedendo a álcool razoavelmente barrigudo; ele para ao seu lado e - apoiado em leis feitas por brancos cheirosos - dá a voz de comando sem olhar sua face negra: - Levante daí sua negra, que eu quero sentar. E você, sem olhar a cara branca e mal lavada simplesmente responde: NÃO. E os EUA nunca mas foram os mesmos.
Tudo isso parece tão distante, mas está tão perto. Sua Excelência, o deputado federal Júlio Campos, dia desses se referiu ao Ministro do STF, o negro Joaquim Barbosa, como aquele “moreno escuro”. E ficou tudo por isso mesmo. Ninguém o acusou de quebra de decoro, de crime de racismo, nem lhe pediram o assento. Definitivamente, não há preconceito racial no Brasil. Sorry, Rosa Parks!