Amigos, é uma coisa terrivelmente interessante o nosso dia-a-dia. Inclusive, e só pra mostrar que tudo mexe com a gente, eu estou com preguiça de verificar se dia-a-dia, substantivo composto, ainda se escreve com hífens ou não. Mas eu sou tão preguiçoso que vou deixar separado por hífens. Se não aparecer no jornal é porque a Carmen Lúcia consertou. Ela fica furiosa com a minha preguiça. E com razão. É uma turma de preguiçosos lá. Ah, se não fosse ela...
Mas eu disse que é ‘terrivelmente interessante’, porque, se mal não comparo, nós nos parecemos muito com uma máquina especial que permanece ligada por todo o tempo em que estamos acordados, e essa máquina, por todo esse tempo, deve manter-se em equilíbrio emocional perfeito. E o que é equilíbrio emocional perfeito? É não gritar, quando se deve falar baixo; é manter-se equidistante ou distante convenientemente de um seu desafeto e sem provocar nem aceitar provocação; é compreender que o outro, se está irado, furioso, pode falar coisas que o desagradem, mas que é conveniente esperar a hora de dar o troco, senão piora tudo; equilíbrio emocional é dar carinho àquele que você percebe muito sofrido, mas também não é desabar a chorar junto com ele, como se o mundo estivesse nos seus últimos segundos; é odiar, sim, porque quase nenhum de nós aprendeu nesta vida a não odiar à toa, mas, logo ao sentir a tensão que o ódio nos provoca, desviar aquele pensamento idiota, lembrar depressa que nada ou ninguém pode merecer um só segundo do nosso ódio, por isso respirar fundo (é um excelente recurso para nos tirar de um pensamento odioso) por algumas vezes, até que recuperemos uma respiração controlada, sinal do nosso retorno ao equilíbrio, porque só no equilíbrio emocional somos donos da nossa vontade e da nossa inteligência; equilíbrio emocional é o resultado de um esforço inteligente e diligente onde você, praticando todos os dias, vai conseguir paciência para escutar as pessoas (todos querem ser ouvidos) e jogar fora o que de imprestável foi ouvido, sem precisar dizer mal do outro (não lhe dá lucro e até lhe aumenta a fama de fofoqueiro)...
Dirá o leitor mais abusado — mas nem por isso menos verdadeiro — que uma boa fofoquinha de vez em quando não faz mal a ninguém não. Tudo bem. Mas até nisso o próprio exemplo contribuiu conosco: “fofoquinha de vez em quando”, ou seja, com certo equilíbrio... Enfim: Nem santo nem diabo, que ninguém é mesmo de ferro para ser perfeitamente equilibrado. A propósito, um dia, quando eu era menino lá na roça, eu me lembro de que fomos a um Jubileu em Tocantins-MG no carro do meu avô, Totônio Costa. Minha mãe, Neusa, e minha avó, Fiita, foram confessar, enquanto meu avô, eu e meu pai, Telim, ficamos no carro (desde aquela época os homens eram menos afeitos a...). Muito bem. Minha mãe levava uma vida de trabalho intenso e brutal na roça, além de cozinhar e todos os et cetera que uma dona de casa sem empregada fazia naquela época, eis que, hoje em dia, se eu contar todos os afazeres de minha mãe num dia comum, eu sei que ninguém vai acreditar. Então, para não passar raiva e entrar em desequilíbrio, não conto.
Pois bem. Minha mãe, com a vida de trabalhos duros que eu lhes contei, mesmo sem contar (dá pra entender sem falar), quando ela foi contar ao Padre Macário os seus pecados, a pobrezinha, na verdade, não tinha, nem na mente nem no coração, pecado algum pra contar. Mas pra não dizer que não disse nada, falou: “Padre, eu xingo muito, e xingo à toa”.
Padre Macário era antigo em Tocantins, conhecia todo mundo, e mais, era um sábio. Olhe só o que ele falou com minha mãe: “Tem problema não, minha filha. Nossa Senhora também teve muita raiva, Nossa Senhora também xingava muito...” Eu nunca mais me esqueci daquilo. E a cada dia, a cada ano, quanto mais velho eu fico, mais eu me encanto com a sabedoria expressa por Padre Macário. Que santa mentira ele pregou à minha mãe!... E tudo isso, também, sempre me lembra o Caminho do Meio. Porque esta expressão “Caminho do Meio”, que Confúcio chamava de Mediania e que eu já citei aqui inúmeras vezes, não quer dizer que haja três caminhos; existem duas margens e, você, sim, é o próprio Caminho do Meio, porque são os nossos ATOS que determinam o nosso valor, não são os nossos conhecimentos, como muitos pensam. Você é pelo que age e, mais ainda, a que você reage. Como dizia Confúcio: “quando você vir alguém pendendo para a esquerda, convide-o a voltar para o Meio; quando vir alguém pendendo para a direita, convide-o a voltar para o Meio.
Ainda agora, e só para lembrar, tive uma surpresa agradável: vi na internet um livro de 2007, escrito por um canadense chamado Lou Marinoff, e o título é exatamente “O Caminho do Meio”. Vendeu 500 mil exemplares só nos EE.UU. Fiquei feliz, porque eu cheguei a pensar (falta grave minha: sou péssimo leitor) que ninguém mais ligava pra esse negócio de filosofia. Agora vi que filosofia está em alta: muitos pensadores de grande estatura cultural e mais 500 filósofos que já se juntaram a Marinoff poderão, com estudos intensos a que se entregam, não propriamente acabar com o sofrimento humano, mas a explicar a dor e ensinar como dominá-la, antes que ela se transforme em algum tipo de loucura que seja capaz de cruelmente, friamente, assassinar doze jovens que deixaram pais e mães inconsoláveis. Nunca os extremos, sempre o Caminho do Meio, sempre o Equilíbrio Emocional. Ai da humanidade, se assim não for!