O marinheiro João Cândido foi um dos líderes da Revolta da Chibata, rebelião dos marujos para exigir o fim das punições corporais aplicadas pela Marinha de Guerra aos marinheiros, na sua maioria negros e de classes sociais mais baixas. Esse movimento foi um dos mais importantes do Brasil, uma luta legítima pelos Direitos Humanos. A força de João Cândido é um exemplo para os atuais movimentos negros contra a opressão e o racismo.
Homem pobre, negro e filho de ex-escravos, nasceu em 24 de junho de 1880, na fazenda Coxilha Bonita, em Encruzilhada do Sul, atualmente Dom Feliciano, localizada no Rio Grande do Sul. Aos 14 anos, ingressou na Escola de Aprendizes de Marinheiro de Porto Alegre. Dois anos depois, iniciou uma vida de dedicação à Marinha de Guerra Brasileira no Rio de Janeiro, e aos 30 anos tornou-se uma das lideranças do movimento pelos direitos humanos, por não aceitar as injustiças da Marinha. Assim, ele e os companheiros organizaram-se em comitês secretos planejando a rebelião, que foi eclodida em 22 de novembro de 1910. Houve o ataque da esquadra à Capital que paralisou-se por 5 dias. Um tiro de canhão foi disparado ao longe, e ecoou em uma das recepções que reuniam oficiais em homenagem à posse do Presidente. Num só dia mais de 3 mil pessoas fugiram para Petrópolis e trens superlotados levaram inúmeras famílias aos subúrbios. Imprensa, Marinha e políticos pediram uma dura reação do governo. Apesar disso, o Congresso e o Presidente Marechal Hermes da Fonseca cederam à pressão dos rebelados e assinaram a anistia. Insatisfeitos , governo e autoridades quiseram voltar atrás e punir os rebelados. Por meio de um Decreto, o governo concedeu à Marinha o direito de excluir os marinheiros revoltosos, e um número de 1216 homens foram expulsos, entre os anos de 1910 1 912. Uma revolta no Batalhão Naval serviu de pretexto para as autoridades agirem e punirem a todos. Bombardearam a Ilha das Cobras, onde estavam concentrados os revoltosos e a anistia foi invalidada. Embora fiel à Marinha, a bordo do Minas Gerais, João Cândido e mais 17 homens foram presos em uma solitária subterrânea, úmida e escura, onde foi jogado cal virgem com o pretexto de higienização. Morreram por axifia 16 presos. João Cândido e outro companheiro sobreviveram-se, foram internados e depois retornaram à prisão. Dois anos depois, em 29 de novembro de 1912, os revoltosos foram absolvidos por unanimidade, pelo Conselho de Guerra, mas João Cândido foi desligado definitivamente de suas funções. Em 1930 mudou-se com a família para São João de Meriti, na Baixada Fluminense e durante esse tempo começou a ganhar a vida como vendedor de pescado no cais do Porto. Com dificuldade conseguiu emprego na Marinha Mercante, mas por pressão da Marinha de Guerra foi demitido. Pobre e quase anônimo, João Cândido Felisberto morreu a 6 de dezembro de 1969.
Dando continuidade à sua luta, cresceram cada vez mais as iniciativas em busca da consolidação dos Direitos Humanos. Ruas e praças ganharam seu nome, sendo erguidos estátuas e bustos em sua homenagem, assim como surgiram música e livros publicando sua vida e a Revolta da Chibata, em 1959. Manifestações na imprensa, no teatro, na literatura e na música resgataram o nome do marinheiro negro e o colocaram entre os homens de valor na história do Brasil. O governo Federal, através da Secretaria Especial dos Direitos Humanos – SEDH, promoveu em 2008 o ano do Mutirão pelos Direitos Humanos, estimulando o fortalecimento da dignidade humana, o respeito aos direitos e o exercício da cidadania.
LEGENDA – Alunos da E. M. São José durante a Exposição