Amigos, morrem dois homens importantes para mim, dois homens que me impressionaram muito com seus exemplos de vida: José Alencar, vice-presidente de Lula, cujo desempenho do cargo, diferente de todos os outros vice-presidentes, trouxe uma nova concepção da importância do que seja ser vice-presidente. Com suas frases de efeito muito bem escolhidas, ele encantou o povo e, ao mesmo tempo, tornou-se uma peça importante na construção deste outro Brasil, o de 2003/2010, que encantou o mundo quando botou a cabeça para o lado de fora e, pela primeira vez, fez-se visto e ouvido, saindo da condição humilhante de 500 anos de submissão e escravismo para tornar-se modelo de democracia, quando Lula escolheu Alencar para vice e uniu, com um toque de mestre, capital e trabalho irmanados. A propósito, uma das frases mais elucidativas de Alencar foi essa, quando ele respondia sobre como conviver junto com Lula, um fazedor de greves, enquanto ele fazia exatamente o contrário, era patrão: “Nós temos que ter a inteligência e a humildade para compreender que o trabalho nasceu muito, mas muito antes do capital. Por isso, não será à força que iremos chegar a um acordo aceitável. O patrão precisa do empregado, mas o empregado não é nada sem patrão. O segredo do sucesso é este: capital + trabalho, não é capital versus trabalho”. As palavras que ele disse podem não ter sido essas exatamente, mas o sentido foi esse. Ora, não será preciso ir buscar mais explicações sobre o porquê de ele ter-se tornado um dos empresários mais bem-sucedidos do País. Este era José Alencar que, tal como Lula, formou-se na escola da vida. Não colecionaram anéis de doutor porque, ambos sábios, preferiram colecionar alianças, acordos entre pessoas, tipo essa mesma citada acima: capital + trabalho. Daí surgiu, certamente, a melhor parceria entre presidente e vice-presidente que o País já teve em toda a República.
Porém, muita gente importante solta por esse mundo inteiro falou e continuará falando dele, Alencar, de passado tão glorioso e, logicamente, não farei falta alguma parando meu texto por aqui. Até porque, são poucas e humildes palavras que eu disse — coisa à-toa —, mas o nosso O IMPARCIAL, como sempre, desde 1896, não terá faltado aos homens e mulheres que merecem registro histórico.
Agora, quando ainda nem bem havia saído do choque de Zé Alencar, vêm dizer para mim, já na terça-feira, que o meu amigo Cláudio Lima havia sido enterrado no dia anterior (??!!)... (Perdoem-me os gramáticos pelos sinais colocados entre parênteses ali atrás, eu sei que está errado). Mas, de fato, é espantado assim que eu me senti na hora. Pior de tudo: até agora, quarta-feira, ninguém me explicou qual foi a causa mortis, nem muito menos o dia em que ele morreu (dizem — só assim que ouvi pela rua —)... Dizem que ele foi encontrado morto em casa já em condições adiantadas de... Quer saber? Nem um aviso nos carros de anúncios fúnebres ele teve. Apenas dizem (outra vez ninguém sabe quem) que a filha dele veio trazê-lo e estava aflita para fazer o enterro, em vista do estado em que ele se encontrava.
Tudo bem. Não serei eu quem irá julgar o gesto dela, porque não posso, também em vista de não saber o que, de fato, aconteceu. Só sei que me fez muito mal saber do enterramento depois que o fato já se consumara. E tenho certeza de que não serei só eu, ele tinha muitos amigos e muitos admiradores na cidade. O que aconteceu? (?)
Pois bem. Não há de ser nada. Aconteceu uma coisa dessas com o homem mais independente que já conheci em toda a minha vida. Vivo, ele não ligaria a mínima para isso. Mas... Para nós... Durante vinte e tantos anos nós dois e mais o Darci e outros saudosos amigos, como o Rusinho, por exemplo, fizemos boas e inesquecíveis pescarias... Meu Deus, que tempo bom aquele!... O Cláudio era um dos bons cozinheiros, junto com o Darci, e, mais do que tudo, o Cláudio era um amigo daqueles que só se encontra uma vez na vida. Durante todos esses anos nós pescávamos em todos os finais de semana, e muitas vezes à noite, no meio da semana. Saía eu do banco e ele não saía de lugar algum, porque... Eu vou contar: Cláudio era Oficial de Justiça, quando Oficial de Justiça ganhava salário mínimo. Só isso. Mas também, se ele fosse pescar e resolvesse ficar por lá 15 dias, ficava. E pronto. Era independente. Todos os juízes que passaram por aqui, que eu me lembre, chegavam dizendo que demitiriam o Cláudio, se ele continuasse imperturbavelmente faltoso ao trabalho e sem justificar-se. Porém, quando conversavam com ele, acabavam convencidos de que aquilo não era salário pelo qual se pudesse cobrar dignidade: no fim do mês recebia e comprava um pedaço grande de fumo de rolo; o resto ele dava pra mulher fazer a despesa (como é que isso dava, eu não sei). Com esse fumo ele tornava-se independente para não pedir um único cigarro a ninguém. Quantas e quantas vezes eu deixava pacotes de cigarro à vontade, mas ele não tirava e nem pedia nada. Mal aceitava, quando eu forçava. Nunca, vejam bem, em todos esses anos, o Cláudio nunca me pediu um único centavo emprestado e muito menos pediu aval. Volto a dizer: Cláudio Lima foi o único homem totalmente independente que conheci: ele se virava apenas com o que tinha e também com o que lhe ofereciam — quando ofereciam —, e em situações de grupo, onde o cozinheiro era ele e, também, não nos cobrava por isso, era troca. Homem decente, Sô! Não mentia, não fofocava... Impressionante! E o melhor de tudo: era um homem de coração bom e puro. E mais ainda: foi o homem mais equilibrado emocionalmente que já vi. Nada o fez gritar ou enervar-se uma vez, uma só vez, em todo o tempo que com ele convivi. Fantástico!
Que pena: sei que não tenho mais espaço. Porém, vejo que uma crônica não é o meio adequado para eu falar tudo do Cláudio Luis de Lima. Vou fazer de tudo para escrever um conto sobre ele. Um livrinho, talvez. Homens como ele e Zé Alencar, a humanidade não produziu mais que uma dúzia, tenho certeza. E, Cláudio: Para mim você não morreu, para mim você é infinito. E será infinito como as moças do seu tempo o consideravam: “o homem mais bonito que Rio Pomba já teve”. Ainda existem vivas mulheres do seu tempo que não me deixam mentir... Que pena!...