Há dias recebi um email comentando uma das minhas Cartas. O correspondente incidental, depois de pontuar o que pretendia, disse: “Textos de escritores não é (sic) muito minha praia.” E emendou de primeira: “Mesmo assim, para variar, os leio para distrair...”. Não entendi bulhufas, mas pode ser que as uvas estejam verdes e eu nunca tenha notado.
Certamente ele não estava a se referir a mim, pobre missivista. Só com muito exagero me vejo na condição de escrevinhador, jamais um escritor. Devo confessar, a propósito, que quando leio Machado de Assis, o papa da nossa literatura, sinto uma enorme vergonha de escrever e de publicar.
Não sei qual é a praia dele, seja qual for, todavia, me é difícil crer que ele não tenha lido Dom Casmurro. Capitu à parte, não resisto imaginá-lo lendo Clarice Lispector, à busca de identificação em algum dos personagens saídos da alma da bela ucraniana que morreu carioca. Lembrei-me de Jorge Amado, Manuel Bandeira, dos mineiros Drumond, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Guimarães Rosa. Cheguei ao contemporâneo Cristovão Tezza, catarinense radicado no Paraná, e seu belíssimo “O filho eterno”, o melhor livro que li em 2010.
Ele deve ter lidos alguns dos escritores nascidos em Juiz de Fora: Rubem Fonseca, Pedro Nava, Afonso Romano de Sant’anna, Paulo Mendes Campos... E o “pombense” Alceu de Amoroso Lima, o consagrado Tristão de Athayde. Listei alguns poetas – Neruda, Lorca, Pessoa, Borges, Florbela Espanca, Ferreira Gullar – mais é tempo perdido, pois quem não gosta de texto de escritores (seja lá o que isso significa jamais entenderá os poetas. Pensei em lhe recomendar o moçambicano Mia Couto, o espanhol Juan José Millás, ou o americano Irvin Yalon, autor dos sensacionais “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Shopenhauer”.
Nessa aflita busca de razões me dei conta de que a opção de frequentar outra praia, em literatura, pode significar não ser de praia alguma, mas deve ser respeitada assim como todas as coisas de Deus. Leio, diz Adélia Prado, para escovar o pensamento. Para este pobre mortal a leitura, sobretudo a poesia, escova não só o pensamento, mas também a alma, e me aproxima do Divino, dos mistérios humanos, dos meus mistérios. Cada um sabe a dor e delícia de ser o que é, disse Caetano, não deve contestá-lo. Nunca vou saber por que diabos aquele homem não gosta de texto de escritor e menos ainda o que ele quis dizer com isso depois de ler uma das minhas Cartas. É tarde. Antes de dormir vou ler um poema de Gabriela Mistral, a chilena, Prêmio Nobel de Literatura de 1945. Afinal, quem não lê, mal ouve, mal fala, mal vê.