Olhe: tem tanta coisa pra falar dos japoneses que eu nem sei como escolher o que cabe aqui neste espaço. Por causa de uma tradução talvez equivocada do inglês “Japan is an island”, é comum ouvirmos e lermos a toda hora, na internet, que o Japão é uma ilha. Eu poderia deixar como está, porque esta discussão parece não ter nada a ver com alguma coisa muito importe. Porém, em sã consciência, e escrevendo para os meus leitores já há 49 anos (estou prestes a encarar as bodas de ouro. É no ano que vem), eu sei que eles não me perdoariam uma falha muito grande. Aliás, por falar em leitores, eu soube que a minha leitora nº 1, a Yara Furtado, está quietinha em casa, caladinha, muito boazinha, encarando a recuperação da sua saúde. Todo dia eu digo assim: Helenice, eu vou lá na Yara hoje. No dia seguinte, vejo que não fui. Prometo de novo... E nada. Então vou daqui mesmo: — Yara, um beijão pra você. Saia da toca, que a rua está com saudade de você. Afinal de contas, você é a NÚMERO UM.
Porém, deixem-me colocar ordem nesta bagunça: Eu poderia até aceitar que o Japão é uma ilha, mas, no total, e na verdade, o Japão é composto por nada menos que 6.852 ilhas e pelo menos 426 delas são habitadas, sendo que quatro maiores concentram a população. Então, na nossa língua, o nome disso é arquipélago, não é ilha. Pronto.
Mas o mais interessante vem agora: — É um dos países mais ricos do mundo? É. E esse país, que mais parece uma colcha de retalhos, não sabe (há milhares de anos!) que está sentado em cima do encontro de quatro enormes placas tectônicas, fato que faria explodir tudo e jogar pelos ares toda a sua população em poucos segundos? Sabe. Está cansado de saber. Tudo lá é construído para esperar as forças astronômicas que, só Deus sabe, surgem das profundezas revoltas em energias de potência incalculável!... E como é que eles ainda continuam morando lá?
Aí é que está, meu filho. Nesta hora é que eu vejo que dedicamos uma miséria de tempo no planejamento do nosso futuro. Na verdade não pensamos muito em nós. Essa história de pensar só no hoje... Sei não, viu? Não sei o que está havendo com a humanidade, mas as pessoas não param mais para refletir. Ah, o meu lugar de pensar!... Lembram-se? Acho que ninguém mais tem o seu lugar de pensar e nem a hora de pensar... Se sobra aquele tempinho sozinho, o sujeito liga a TV e começa a escutar qualquer besteira que logo lhe chama a atenção, e por ali fica, vendo um big brother da vida, um Silvio Santos também qualquer... É assim que eles acham que formam sua cultura. E mais: ninguém quer ficar sozinho consigo mesmo. Por que será?
Hoje, quando estou escrevendo este texto, é terça-feira, 15.03.11, e eu ainda não sei como terminará essa tragédia do Japão. Porém, termine como terminar, hoje eu vi o jornal pela manhã e, depois, vi um telefonema feito pela Ana Maria Braga a uma mulher brasileira que mora no Japão, e está lá. Pelo menos até hoje, estava. Mas, para ser mais rápido, a Ana perguntou-lhe por que não vinha embora. Ao que ela respondeu com toda a sinceridade: “Olhe, é muito difícil. Eu gosto do Brasil, porém, eu tenho filhos aqui e os educo aqui (no Japão). É impressionante a educação familiar no Japão. A forma como eles veem o próximo, a dedicação e o respeito pelo outro... Por exemplo: nós só temos dois litros de água por cada pessoa e tudo mais está racionado. Nossos cofres estão cheios, mas o que vale o dinheiro? Aqui, nada. Porém, e mesmo assim, não se vê qualquer saqueador, e ninguém é capaz de violar as normas preestabelecidas. Os japoneses não admitem, de forma alguma, invadir o direito do outro. Passam fome, mas não o fazem. São educados em tudo. Eu jamais conseguiria educar meus filhos no Brasil como os educo aqui. Não há país melhor para se forjar o caráter de um filho do que no Japão. Isso, para mim, é tudo. A escala de valores morais deles é sublime, quase divina”
Caramba! Eu fiquei encantado com a mulher. Como brasileira, sei que ela estará cantarolando lá: “Mas eu só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara”. E isso me levou a outra ideia: — Ora, meu Deus, mas não é preciso morar no Japão para se ter caráter, honradez, personalidade... Em qualquer lugar onde as pessoas se reunirem e resolverem a ser como os japoneses, aí será um lugar maravilhoso para educarmos nossos filhos. O que falta, então, para que façamos esta reunião? Se algum leitor descobrir como fazer isso, descobriu o Cálice Sagrado! Logo, me avise depressa, viu? Estão vendo como seria tão fácil sermos um povo plenamente probo e feliz? Veja: aqui não tem nenhuma placa tectônica. O Cariri do mundo é aqui. Por que não criarmos um Japão aqui? Não seria o Paraíso?