Amigos, um dia desses toca o telefone e eu atendo. Era a Mariléa Baesso. Minha curiosidade aumentou, porque não temos o hábito de trocar telefonemas, ainda que eu tenha a Mariléa na conta das mulheres mais elegantes da cidade e, no caso dela, não é apenas uma elegância física, plástica, mas aquele todo (que é o fundamental), os dons, a sensibilidade no trato, a simpatia, ou seja, ela pertence àquele grupo pequeno de pessoas que irradiam elegância até nos mais simples gestos e, outra vez no caso dela, a sua personalidade invejável. Elegância, aliás, não é apenas vestido de grife.
Bem, eu devia isso à Mariléa e tinha vontade de escrever. Escrevi.
Mas, voltando ao telefone, ela me disse que estava incumbida de me comunicar sobre a morte do meu amigo Dirceu Miranda, em Juiz de Fora. No momento, o choque de sempre. Acabava de morrer um dos melhores homens que conheci, um dos melhores poetas que ouvi, uma das vidas mais úteis, dignas e verdadeiras que alguém poderia me mostrar; um homem franco e educado, um amigo fiel e honesto o bastante para me falar dos meus defeitos, e mais, com a mesma sinceridade com que me elogiou diversas vezes, como quando ficou emocionado ao me ver tocar violão e cantar músicas minhas e também as dele... Ele deixou comigo uma valsa que fez para mim. Que sensibilidade!
Era compositor dos bons, Nelson Gonçalves e outros grandes do seu tempo cantaram músicas que ele fez, eu vi os LPs.
Todos os domingos, lá pelas 22h ele me ligava: —“Oi, Geraldo, como vai?” — falava com uma voz mansa, sempre mansa, voz de quem já anuncia que pretende, se for possível, conversar coisas que os amigos e poetas conversam. Depois que sua esposa morreu, essas conversas se amiudaram um pouco e foi quando eu vi como era grande o espírito maravilhoso de Dirceu Miranda!... Eu achava tão sublime o sentimento, a voz terna com que Dirceu falava da saudade que sentia de sua mulher. Era um homem de oitenta e tantos anos falando de amor, um amor profundo, verdadeiro e encantador... Ah, por que não gravamos essas conversas todas?... Desculpem. Eu me deixei levar pela emoção. Eu não poderia nunca gravar aqueles momentos de rara beleza de sentimentos de um homem tão vivido, tão sábio e tão curiosamente ajoelhado aos pés do amor, do amor que sentia por sua mulher. Não, não, isso não se grava. Foi tudo verdade, mas ficará para sempre entre nós dois, como nos contos de fada. Sentimentos tão lindos, palavras de amor que ele dizia com tanta saudade... Não, ninguém mais precisava saber disso. Só ele e eu. Era assim que ele queria, foi assim que ele fez. Pois fica feito.
Outra curiosidade, dessas que acontecem numa longa e grande amizade: Dirceu deixou duas filhas (Maria Céli e Marília). Para mim, sempre que eu precisava pronunciar, por exemplo, “A Marília do Dirceu”, incomodava-me a minha própria voz, parecendo me avisar algo errado na pronúncia. E eu sempre quis perguntar qual a relação entre a sua Marília e a outra, da obra famosa de Tomás Antonio Gonzaga: “Marília De Dirceu” (aí, sim, a pronúncia soava bem). Porém, entre amigos que se gostam muito, nem todo o tempo do mundo será capaz de esgotar-lhes os assuntos todos que precisam discutir entre si. Assim éramos nós dois.
Olhe, eu estou muito triste. Ele sabe, esteja onde estiver, que eu estou triste. Não é fácil e nem comum encontrar uma alma gêmea como eu encontrei em Dirceu. Dizem que quando a porta da felicidade se fecha, outra porta se nos abre. Mas, que curioso: eu estou tão preso àquela porta fechada que não consigo perceber nada em volta ou ter um novo interesse por qualquer porta nova que se abra. Este deverá ser aquele sentimento de saudade que ele falava tanto, quando citava sua falecida esposa. Na verdade, quem tem um amigo que nos encanta, como era a minha amizade com Dirceu, e Deus o leva, como foi o caso, só uma coisa nos conforta: a morte calou nossas bocas e separou-nos fisicamente, mas esteja ele onde estiver, eu jamais sofrerei solidão; sofrerei de saudades, eu sei, mas sei também que não morrerei só, porque saberei conservá-lo na lembrança, ao alcance da minha saudade, e falarei com ele tudo que quiser.
Dizia Horácio (Quintus Horatius Flaccus — Roma, 65 a.C): “Ai de mim, póstumo, póstumo. Fugazes correm os anos, e as preces não podem retardar as rugas, a velhice premente e a morte inevitável”. Horácio era um grande poeta lírico que nasceu na Itália e morreu pouco antes de Jesus nascer (oito anos antes). Porém, o meu amigo Dirceu era mais que um poeta, ele era um grande pensador, tinha ideias e pensamentos que me encantavam. Aliás, ele próprio era encantado com a vida, embora tudo indicasse que não tinha nenhum medo da morte. Era um sábio. Bem, acho que é hora de me despedir. Ele mesmo, se vivo fosse, já me teria dito ao telefone: “Geraldo, vou desligar, acho que já estou lhe incomodando”. Ele era também isso: um gentleman.
A propósito da despedida, a amizade verdadeira é como a saúde perfeita: a gente nem se dá conta de que a tem. Mas no dia em que a perdemos... É triste. A ausência dele já colocou entre nós um doloroso abismo de saudades. Rio Pomba ficou mais pobre.