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Cartas Brasilienses
Postada por:  Roberto Nogueira,  em  19/03/2011 às 17h01
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A Praça é nossa!
Cartas Brasiliensis (XIV) - Roberto Nogueira Ferreira - robertonogueira@terra.com.br

19/03/2011 às 17h01

O Brasil surpreendeu-se, nos anos 1960, quando um quase menino começou a cantar que estava à toa na vida quando o seu amor lhe chamou para ver a banda passar cantando coisas de amor. Boa parte dos jovens daquela época estava em outra. Eu, inclusive. Outro quase menino disse para a sua musa que sentou naquele banco da pracinha só porque foi lá que o nosso amor nasceu. A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Chico não diz onde a Banda passava. Minha memória afetiva, entretanto, sempre a vê passando pela praça, qualquer praça, de qualquer cidade, de qualquer país, cantando coisas de amor para o homem sério que conta dinheiro, o faroleiro que conta vantagens ou a moça feia que debruça na janela. Ronnie foi direto. Até se lembra que o guarda é o mesmo que um dia o pegou roubando uma rosa amarela para dar à namoradinha. Tudo segue igual, a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim, mas ele se está triste porque não tem a amada perto de si.

A Praça da Matriz, a Praça Doutor Último de Carvalho, ou o “Jardim”, como muitos a chamam, é o quintal de todos nós, é o jardim que regamos todos os dias, é o cartão de visitas de Rio Pomba. É obrigação cuidar bem dela, pois quando a gente gosta é claro que a gente cuida, ensinou Peninha. A praça é tão bela que a cena final de “O Viajante”, todo rodado em Ubá, se passa nela, com seu coreto, seus amplos espaços, sua fonte, suas esculturas representando as “estações do ano”, seus cachorros de concreto que atravessam gerações. Em dezembro assisti uma cena que sintetiza o que estou querendo dizer, e direi. A nossa primeiríssima dama arrancava dos canteiros do jardim algumas ervas daninhas, as quais, se aproveitando do adubo alheio, – no humano mundo também há quem se aproveite do adubo alheio – lentamente ocupavam lugares que não lhes pertencem. Ela deu às pragas um recado claro: O povo de Rio Pomba não se esqueceu da Praça, nem as autoridades a abandonaram, aqui não é o lugar de vocês.

Dias depois o prefeito de Rio Pomba – sem se importar com a demagogia barata, o falso populismo, o socialismo de ocasião – fez o que de mais belo e representativo poderia fazer em nome do resgate da dignidade da Praça: comandou a festa de réveillon em local apropriado, organizada por profissional especializado, em suma, transformou a comemoração em algo socialmente digno. Saiu tudo tão perfeito, que a comemoração não virou notícia. Da Praça, silenciosa e bela, como deveriam ser todas as praças todos os dias, sem o incômodo de vândalos e mal educados que transformam ruas em banheiros públicos, assistimos, ao longe, o malabarismo dos fogos iluminando o céu. Então pude abraçar e beijar Maria Angela, na mesma Praça, no mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. E feliz, porque a tenho perto de mim.

No dia seguinte a Praça recepcionou o novo ano limpa, cheirosa, sem o odor de anos anteriores, que tanto a humilhava. Se o prefeito nada mais fizer, já fez.

A Praça é nossa!






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