Logo após o resultado do segundo turno da eleição presidencial, os jornais noticiaram fartamente uma declaração da estudante de São Paulo, Mayara Petruso, que disse textualmente pela internet o seguinte: “Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado”. Esta repulsiva declaração da estudante resultou de seu inconformismo com a derrota do candidato José Serra, em quem ela votou.
Mas o pior de tudo é que se trata de uma estudante de direito, cujas palavras mereceram a repulsa e a condenação de todos os setores da sociedade brasileira, razão pela qual foi combatida com todas as forças, a começar pelos próprios estudantes. Incrível como uma estudante de direito proclame uma barbaridade dessas. Começa muito mal.
A verdade é que a internet e o twitter, este em particular, estão mostrando comportamentos que só vigiam na vida particular de cada um e aí aparecem preconceitos, os quais se tornam visíveis nas redes sociais.
Esperamos que esta estudante receba uma boa lição e que as barbaridades disseminadas na internet sejam objeto de ampla discussão, como aconteceu, mesmo que isso possa virar o nosso estômago. Enquanto esta péssima acadêmica demonstrava todo o seu ódio, a consagrada cantora norte-americana, Norah Jones, em São Paulo, prestava uma comovida homenagem ao não menos consagrado nordestino Luiz Gonzaga, interpretando a linda “Asa Branca”.
Infelizmente, no sudeste ainda são alimentados muitos preconceitos contra os nordestinos e o governo Lula deu amplo apoio ao nordeste, melhorando substancialmente o padrão de vida de vasta parcela do sofrido povo daquela região, mas é certo também que tais atitudes fizeram recrudescer os aspectos mais odiosos desse tipo de mentalidade, que tem muito de fascista, felizmente minoritária.
O presidente Lula nada mais fez do que iniciar o resgate de uma enorme dívida social para com o povo nordestino, o que é importantíssimo para dar a este país contornos mais civilizados.
Memória
Meu caro Celinho Gaudereto, vai aqui mais um fato memorável do nosso esporte, do qual fomos testemunha ocular.
O Pombense jogava com o Itararé, de Tocantins. Naquela tarde, embora com um time superior em qualidade, o Pombense jogava mal e acompanhando esta má jornada também estava mal o Geraldo Cunha, um craque em todos os sentidos. Isto acontece. Mesmo o craque tem o seu dia de pé duro.
Na parte de cima do morro no campo do Pombense, onde hoje existe uma arquibancada, estávamos eu, o Boris Caiaffa e o Euclides Caiaffa (o Quidinho do Zé Caiaffa). Na parte de baixo, em volta do campo, o sr. Décio Cunha, com um guarda-chuva pendurado no braço, andava para baixo e para cima, falando em voz alta: “Eu não sei o que
acontece hoje; o Geraldo não está bem, errando passes, não deu um chute a gol até agora; não fez uma boa jogada, eu não sei o que está acontecendo; vai Geraldo, vai Geraldo, meu Deus, o Geraldo pisou na bola”.
O sr. Décio passou em frente ao local onde estávamos e o Quidinho, na base da gozação, escondeu-se atrás de nós e gritou a plenos pulmões: ”tira o Geraldo de campo, o Geraldo está enterrando o time!”. O sr. Décio Cunha voltou imediatamente, sacudindo o guarda-chuva sobre a cabeça, muito bravo, parou em frente onde estávamos (ele não conseguiu saber quem havia gritado) e falou alto e bom som: “Quem foi o ignorante que pediu a saída do Geraldo; quem foi este ignorante, que não sabe nada de futebol e fica falando besteira; o Geraldo está sendo sacrificado e é o único jogador do Pombense que ainda está fazendo alguma coisa e não merece que um bunda-mole qualquer fale asneiras”.
Mas isso, meu caro Celinho, foi dito aos brados, sacudindo o guarda-chuva sobre a cabeça e voltado para onde estávamos no alto do morro. Em postura séria e segurando o riso, concordamos com a bronca do sr. Décio.
São histórias e curiosidades do nosso futebol, do qual o sr. Décio Cunha foi um dos mais destacados torcedores e entusiastas, não perdendo um jogo sequer, especialmente aqueles em que o Geraldo vestia a gloriosa camisa do Pombense.