Amigos, eu tenho dois personagens, entre outros, que já fizeram muito sucesso aqui. Um deles é a Emengarda, uma velha faladeira, gênio horroroso, zangada a toda hora que se a encontra, fala mal do povo inteiro e, se não blasfema, é porque ouvia o padre dizer no altar que quem fala contra Deus vai para o inferno de cabeça para baixo. Ela é, como se diz na moda corrente, “uma figura”! Usa invariavelmente um vestido de chita com mangas compridas, botões na frente, que vão da gola até a cintura que, por sinal, não é cintada. Vai aquilo direto e quadrado, tipo tubinho, até o tornozelo, e de tal jeito que quem olha pra ela apenas supõe como deve ser aquele corpinho magrelo que se esconde lá dentro. Peito? Isso não se sabe se ela tem. O único detalhe sobre este item da sua belezura é que, quando ela está de costas, pode-se perceber a alça do sutiã por baixo da chita e que, um dia, lá bem antigamente, pode ter tido ali alguma serventia. Nos pés, uma alpercata sempre empoeirada completa o traje. Aliás, já ia me esquecendo de um dos mais importantes detalhes: o vestido, logo abaixo da cintura, na frente, traz dois enormes bolsos. Ali ela põe seus pertences: palha, fumo de rolo, canivete, chaves e mais um sem-número de trecos já inservíveis para nós, da informática, mas indispensáveis para o seu estilo de vida, e mais: tudo isso num só bolso. No outro, meu amigo, ela carrega nada menos do que dois lenços, ambos sempre úmidos e amarrotados (nojo), que ela usa quase de minuto em minuto para limpar uma coriza crônica, eterna, que lhe escorre pelo rosto abaixo causando-nos até repulsa, repugnância. Como se não bastasse, o cigarro já lhe adiantou como certamente será o seu fim: ela tem uma tosse incessante e um catarro que lhe escorre, não raras vezes, pelo peito do vestido afora (haja lenço!), já que decote ela nunca usou.
E assim vai ela, entra ano sai ano, babando peito abaixo a sua raiva, também crônica, raiva do mundo inteiro — e ninguém sabe por quê —, formando um quadro triste que eu vou tentar mostrar a você como é: enquanto ela tosse e tosse e tosse, o catarro vai espirrando enquanto ela fala e xinga sem parar e excomunga todos que lhe dizem gracejos ou zombarias. Para resumir, é o seguinte: a não ser tossir, fumar, xingar, escarrar e falar mal dos outros sem parar, não lhe sobra nada mais para fazer o dia todo. Eu fico até pensando sobre o porquê de Deus não ter pena dela... Será que nós temos mesmo que pagar aqui na terra os males que praticamos? Porém, eu não sei nada, eu não sei de onde ela veio, não sei do seu passado... Como pode ter gente assim?
No entanto, ela tem um parente que é uma pessoa generosa, inteligentíssima, e magnânima, até! O nome dele é Amâncio, e vocês já o conhecem, claro. Amâncio é um filósofo, ele é genial. É o papo mais agradável e inteligente que já vi. Mas vejam só as contradições deste mundo: pois não é que ele é sobrinho da Emengarda? Sim senhor. É isso que eu não entendo no ser humano: como é que pode, numa mesma família, nascer um monstrengo como a Emengarda e um filósofo admirável como o Amâncio?
Um dia desses encontrei o genial filósofo tomando uma pinga dos “Granato” no botequim ali da praça Último de Carvalho. Gosto de provocá-lo e depois deixá-lo falar sem ser interrompido, por isso, comentei:
— É, meu amigo, os anos estão passando muito depressa. Tenho pensado se vale a pena ficar velho, bem velho... Mas também não tenho tanta coragem assim para... para morrer, sabe? Ô dúvida atroz, não?
Ele me interrompeu:
— Meu amigo Santão, cada um sabe de si, mas dizem que os anos entre cinquenta e setenta são os mais difíceis. E nós dois estamos neles, hem? E por que mais difíceis? Porque você é quase sempre chamado a fazer coisas para as quais não se sente suficientemente velho para recusá-las. Seria uma confissão de invalidez. No entanto, se aceitamos o desafio, pode ser que nossos planos não deem certo. Voltemos, então, aos velhos tempos: “o que não tem remédio, remediado está”; com o tempo, nem precisamos evitar a tentação, ela própria cuida de nos evitar. Outros existem que são piores do que nós, são os avarentos: passam a vida juntando dinheiro, ficam escravos disso e acabam levando vida de pobres miseráveis. Dizem os gregos que é mil vezes melhor ser dono de uma moeda do que escravo de duas. Já Zeca Pagodinho tem essa frase musical que é ótima: “Deixa a vida me levar...” Está errado também? O que fazer? Lixarmo-nos para a sociedade ou não? A única sociedade que eu ainda tolero é o casamento. Mesmo assim, casamento nenhum dá certo. Se deu certo é porque um dos dois abriu mão da sua legítima VONTADE e da sua própria LIBERDADE. Porém, por outro lado, o que seria da humanidade sem o casamento? Meu Deus, que loucura esse negócio de ficar velho!... Está vendo a Emengarda andando aí pela rua como um animal sarnento babando a raiva e...? Fazer o quê? Morrer antes?
— Mas quando é que a gente aprende esses pulos-do-gato? — interrompi, pois sabia que não tinha mais espaço aqui.
— Ora, meu amigo, não aprende. A vida é assim: Ali pelos 40 a gente para de criticar os mais velhos e começa a criticar os mais novos, exatamente como era no princípio, agora e sempre. E amém.
—Quer dizer que o Roberto Nogueira está com a razão, “Ficar velho é uma merda!” ?
— Exatamente!
—Então, tá. Deixa a vida me levar... Não há uma única raiva que valha a pena. E nada melhor que um bom almoço ENQUANTO se pode comer o que quer. Ah, que tal um bom sorvete depois?