Amigos, a Igreja católica começou a celebrar a missa do galo no dia 25 de dezembro em homenagem ao nascimento de Jesus. Daí, o Natal. Quanto à festa de fim de ano, todos os povos que utilizavam o calendário lunar de 365 dias festejavam o primeiro dia de janeiro desejando boas colheitas e saúde (aproveitando o ensejo, Rio Pomba teve a Missa do Galo — maiúsculas —.mais perfeita do mundo por muito tempo, porque celebrada pelo padre Gladstone Batista Galo. Nada mais autêntico).
Estou, pois, fazendo uma brevíssima avaliação das festas de fim de ano, até porque, vocês estão vendo, a ideia primeira era desejar boas colheitas, depois saúde; evidente, sem o que não se poderia trabalhar. Mas o meu objetivo inicial é levar o leitor à reflexão mais do que imperativa, ou seja, a finalidade era a colheita, seja ela em que sentido for. Ora, como desejar boas colheitas a quem passou 365 dias vagabundando ou, por outro lado, plantando discórdia, plantando vento, ou não plantando nada além de 365 dias ociosos, completamente no à-toa da mente, do coração, da razão, da afeição...? Haverá alguém com saudades imorredouras de FHC que poderá dizer: “Ora, depois do governo Lula, não precisa ninguém esquentar a cabeça, a mesa ficou cheia o ano inteiro: é bolsa estudo, é bolsa família, é bolsa emprego, é bolsa... Pois é. Isso é a conversa das viúvas de FHC, mas enquanto o pobre ganhou dinheiro do governo Lula para comer, esse dinheiro não precisou servir para pagar milhões de policiais, centenas de carcereiros e milhões de refeições que se tem que dar aos reclusos na cadeia, que seria uma forma muito menos proveitosa de gastar dinheiro, a meu ver. Basta que nos lembremos da enorme quantidade de gente pedindo esmolas pela rua afora aí... Ou não se lembram? Cadê eles?
Mas ninguém aguenta o povo. Estão sempre reclamando e alguns até produzem pensamentos interessantíssimos a respeito, como, por exemplo, dizer que “a vida é mais simples do que a gente pensa; basta aceitar o impossível, dispensar o indispensável e suportar o intolerável”. Bela cabeça a desse cara, só que deve ser um dos pessimistas que fundaram o pessimismo universal. São insuportáveis.
Todavia lá vou eu fugindo da conversa principal: o que comer no Natal? Ah, nem posso calcular a quantidade de gulosos que não estão nem dormindo, pensando no peru de Natal, ou na leitoa, ou... Mas o salgado não basta, os sonhos mais lindos que sonham ocupam a área dos chocolates, dos pudins, daquelas taças generosas de sorvete, hunn... Não, gente, sem isso não dá! Já pensou passar um Natal comendo macarrão branco? Aí, como dizia minha avó, é judiação demais! Por falar em gula, só agora me lembro de que me esqueci de encomendar a leitoa ao Lete. Ele está vendendo uma leitoa que se chama “Java”. Diz ele que é cruzamento de javali com porco caipira. Dizem que é até menos gordurosa... Mas quem está se importando com uma gordurinha à-toa no Natal? Vejam bem se não tenho razão: ficam preocupados por causa das gorduras e doces que fazem tão festiva a nossa gula entre 24 e 31 de dezembro. Ora, isso não engorda nem mata ninguém. Por que não invertem a coisa, levando a sério o período entre 31/12 deste e 24 de dezembro, mas do outro ano? Se a gente levasse a sério a dieta o ano inteiro, no Natal e Ano Novo todo mundo poderia encher a cara à vontade no fim do ano, coisa de fazer inveja àquelas comilanças do Império Romano, que a gente vê nesses filmes épicos. Querem vocês saber de uma coisa? Há pessoas que até se culpam por festejarem muito o Natal, entregando-se aos comes e bebes. Queriam que o tempo maior ficasse com a celebração do nascimento de Jesus. Mas é mal-entendido, viu? Dá muito bem para se conciliar as duas coisas: atende-se aos aspectos concernentes à religião e depois mão no garfo e no copo, que ninguém é de ferro, uai.
Amigos, o meu espaço está acabando, tenho que terminar. Da minha parte, e ainda falando sobre colheita, eu plantei as coisas que planto sempre. A propósito, na seara da minha vida (meu campo cultivado), eu sempre planto as mesmas coisas. Por isso colho as mesmas coisas. Aliás, ninguém colhe o que não plantou. Não podemos reclamar de nos faltar amizades, se não plantamos afeição, não cultivamos os amigos. Eu procuro sempre, seguindo o sábio estadista Abraham Lincoln, ser sincero. Diz ele que ninguém conseguirá convencer um rato de que o gato lhe traz boa sorte. A vida não é, pois, apenas uma interrogação a ser descoberta, mas um mistério que devemos viver com tolerância. Afinal de contas, é muito difícil saber sobre as verdades das outras pessoas. Eu, por exemplo, tenho esta mania de escrever. Não sei se alguém já disse isso, mas escrever, para mim, é pintar com palavras. O quadro é a folha de papel e a gente vai rabiscando, rabiscando, e assina embaixo. Escrever pode ser pintar alguém, dar-lhe rosto. Por isso é que um bom texto não deve conter erros; podem manchar a maquiagem e estragar, talvez, um lindo rosto. Uma palavra fora do lugar e lá se vai a beleza de um lindo pensamento.
Desta forma, tenho eu vindo por aí afora plantando as minhas sementes a meu modo. A cada Natal sei que no ano seguinte poderei ter algo de novo nascido na minha seara, pois eu plantei. Nos Anos Novos, todos têm uma nova chance de plantar. Com sorte e com fé, pode-se até colher, sabe? De tudo, só Deus sabe. Feliz Natal então.